Doces, travessuras e acessibilidade

No Halloween, a inclusão também passa pelas telas: especialistas explicam como pessoas cegas podem participar da cultura do terror.

Por: Manuela Mineiro & Douglas Ferreira.

Há mais de 3 mil anos, o povo celta celebrava o Samhain, festival que durava três dias e começava em 31 de outubro. Segundo as crenças da época, durante esse período, os mortos se levantavam e se apoderavam dos corpos dos vivos. Por esse motivo, as pessoas começaram a se fantasiar, com o intuito de se protegerem dos maus espíritos.

Ao longo dos anos, a data se popularizou em diversos países, principalmente nos Estados Unidos, onde o Halloween é especialmente celebrado pelas crianças por meio da brincadeira “Gostosuras ou Travessuras”. Entretanto, a festa não se limita à caça aos doces e às fantasias: nos últimos anos, também ganhou espaço na cultura pop.

Em 1978, durante a Semana do Halloween, estreava nos cinemas dos Estados Unidos o filme “Halloween: A Noite do Terror“. Desde então, o cinema de terror passou a fazer parte da festividade. A sétima arte leva o medo para dentro das casas e cria experiências que podem ser compartilhadas. Nesse contexto, pensar em acessibilidade é fundamental para garantir que todos possam participar.

POSTER A NOITE DO TERROR
Poster do filme “A Noite do Terror”, 1978.

Nathalia Hernandes, coordenadora da equipe de audiodescrição da SHOWCASE, contou ao Click Inclusão sobre o preconceito enfrentado por pessoas cegas durante essas celebrações: “Halloween é uma data muito celebrada por muitos grupos e muito por pessoas cegas. […] As pessoas acham que cego não comemora Halloween, não faz nada disso. Faz, sim!”

A inclusão também precisa estar presente nas adaptações de obras que já conquistaram uma comunidade de fãs. Nathalia relembra a polêmica envolvendo a série The Last of Us, que foi lançada sem acessibilidade, apesar de o jogo original ter sido desenvolvido com recursos de acessibilidade. Para ela, a situação evidenciou a exclusão de pessoas com deficiência de uma experiência cultural da qual já faziam parte: “É uma celebração de uma cultura pop. Como é que esse grupo está sendo excluído? Quando a gente fala de The Last of Us, a gente tá falando de um jogo que foi feito para essa comunidade. Como é que a série não vai ter esse acesso? E isso se torna um problema muito maior, porque a gente está falando da exclusão de um grupo de pessoas, não só do direito da pessoa de ter acesso àquela informação, mas dela como fã também, toda a expectativa que foi criada.”

A coordenadora também explicou as particularidades da audiodescrição em diferentes tipos de filmes de terror e a importância de respeitar a narrativa: “Se você está falando de um filme muito violento, você vai ter que ter um linguajar menos formal e talvez um pouco mais direto ali. Se for um suspense de muito silêncio, evite falar em excesso; deixe que as cenas falem. […] Quando a gente fala de filmes de terror, existe toda uma delicadeza de você não usar spoilers, não atrapalhar os jumpscares, tentar usar frases mais curtas e mais precisas para que você não roube o silêncio da cena. Isso também é muito importante: andar com a sonoplastia.” 

Ana Ramos, analista de produção, roteirista e especialista em audiodescrição, também contou ao portal sobre os desafios de elaborar o roteiro do filme “O Homem Invisível”, suspense em que o monstro não é visto. Para ela, a dificuldade estava em descrever uma presença invisível sem revelar o mistério da trama: “Acho que o fato de ser uma pessoa invisível, que está sempre lá com ela, foi o mais difícil. Porque a gente tem que descrever tudo o que é visual, só que o homem invisível a gente não consegue ver. Não tinha como descrever a movimentação dele, então a descrição era basicamente tudo o que acontecia com ela. […] Como a gente não pode dar um spoiler do que está por vir, a gente se apoia muito nessa questão de sonoplastia. […] A gente precisava que as pessoas entendessem também os sons específicos do filme, como quando ele — o homem invisível — estava próximo. Então, não dá para você sobrepor essa parte.” Esse trecho demonstra como Ana adaptou suas descrições para não interferir na trama:

No terror, o medo pode surgir de diferentes maneiras: em um silêncio prolongado, em um movimento inesperado ou em um grito cuidadosamente planejado. Por meio da audiodescrição, esses elementos também podem fazer parte da experiência de pessoas cegas, preservando o suspense e a atmosfera da obra. Afinal, o medo também pode ser uma experiência compartilhada.