Por Yasmim Verdadeiro Augusto

Não é de hoje que a arte retrata a vida e nos faz refletir sobre nossas atitudes e sobre as pessoas com as quais convivemos. E não é diferente com os curtas-metragens, filmes de pequena duração que abordam diversas temáticas e com variados objetivos. E um dos temas tratados por esse gênero cinematográfico é a inclusão de pessoas com deficiência no convívio em sociedade. 

Estigmatizadas e rodeadas de preconceitos, as pessoas com deficiência, infelizmente, constantemente lidam com as barreiras da exclusão social. Então, com o objetivo de romper com esses paradigmas, os curtas Cordas e O Presente são referências na abordagem do tema e mostram que viver a vida felizmente é possível, independente das circunstâncias.

Cordas (2013)

Em pouco mais de 10 minutos, o curta-metragem espanhol Cordas (no original, Cuerdas) leva o telespectador a experimentar sentimentos de alegria e empatia, o que o faz até mesmo derramar lágrimas de compaixão.

Escrito e dirigido por Pedro Solís García, a história é inspirada e dedicada a seus próprios filhos. Seu filho Nicolás possui paralisia cerebral, o que o impede de andar e falar. Por outro lado, sua filha, Alejandra, faz de tudo para que o irmão se sinta pleno em sua infância. Demonstrando a importância que sua realidade pessoal teve na construção da história, Pedro até mesmo realiza uma dedicatória ao final de seu trabalho.

Tradução:
A minha filha Alejandra: obrigado por inspirar essa história.
Ao meu filho Nicolás: quem dera nunca tivesse inspirado essa história.
A Lola [esposa]: por tudo que não tem chorado diante de mim.

Essa produção audiovisual fez tanto sucesso que foi vencedora de mais de 125 prêmios, além do prêmio Goya 2014 na categoria de “Melhor curta-metragem de animação”. Ademais, se tornou um marco por, em poucos minutos, ser capaz de tratar de assuntos como amizade, amor ao próximo, respeito às diferenças e inclusão escolar, além de combater as barreiras da aceitação.

Mas, afinal de contas, do que se trata essa história inspiradora?

O curta narra a história fictícia da amizade entre María e Nicolás. Ambos são moradores de um Orfanato Provincial, mas Nicolás tem paralisia cerebral – o que o impede de falar e andar – e não é bem aceito pelas outras crianças do local. María, pelo contrário, se interessa pelo menino e busca sempre ajudá-lo.

Durante a narrativa, a menina nota as impossibilidades de Nicolás, mas não desiste de tentar uma proximidade. Para tanto, reconfigura e recria jogos e atividades. Com o auxílio de uma corda, María e Nicolás jogam futebol, leem livros, empinam pipas, brincam de esconde-esconde e de pirata. Ao longo dessas brincadeiras, Nicolás vai expressando reações de felicidade através de sorrisos, coisa que não fazia no início do enredo. Isso tudo revela, como afirmou o próprio Pedro em uma de suas premiações, que “há cordas que não amarram; e sim, libertam”. 

Diante desse cenário, María vai, cada vez mais, se animando com a recuperação de seu amigo. No fim, muito mais do que ensinar María a beleza da amizade e a graça de ser feliz na companhia de quem se ama, Nicolás influencia o rumo que a vida da menina toma 20 anos após o episódio narrado. Quer saber como? Então, não perca a oportunidade de apreciar o curta dublado no link.

O Presente (2014)

Baseado na tirinha Perfeição do ilustrador brasileiro e criador do site Mentirinhas, Fábio Coala, o curta O Presente mostra, em cerca de 4 minutos, a reação de um garoto ao receber de presente um cachorro sem uma das patas dianteiras. 

Essa adaptação cinematográfica foi resultado de um projeto de conclusão de curso do alemão Jacob Frey que, como consequência da qualidade do trabalho que produziu, recebeu um convite de emprego dos estúdios Disney, onde trabalha atualmente. Além disso, o curta fez tanto sucesso que foi eleito como “O Melhor Curta-Metragem” no Festival de Bruxelas, além de ter participado de mais de 180 festivais de filmes, dos quais ganhou 50 prêmios.

O curta recebeu esse reconhecimento internacional devido a temática que aborda: de que limitações físicas não são impeditivas para a felicidade. E como isso se constrói ao longo da narrativa?

Tudo se inicia em uma sala escura, com um garoto agarrado aos videogames e que ganha da mãe um filhote de cachorro. Inicialmente, feliz com o presente, o menino expressa um sorriso no rosto, mas a situação muda quando ele nota que o cãozinho não tem uma de suas patas dianteiras. 

Devido a limitação física, o garoto rejeita o cachorro, soltando-o no chão e voltando a dar atenção ao videogame. Mas o animal não se deixa abalar: encontra uma bola vermelha no chão e começa a brincar, mesmo enfrentando alguns tombos decorrentes da ausência de uma de suas patas.  Diante da situação, o menino conclui que, independente de sua deficiência, o cachorrinho era feliz e não deixava de viver, de modo que não era a ausência de sua pata que o tornava menos perfeito. Assim, pouco a pouco, há uma desconstrução da estigmatização estabelecida pelo garoto em relação à deficiência do animal, de modo que, através da empatia, o menino revela, no fim, ter muito mais em comum com o cãozinho do que o telespectador pode imaginar. Quer saber como? Então, não deixe de conferir o curta, na íntegra, no link.

Não perca também a oportunidade de ler a tirinha de Fábio Coala, que inspirou essa produção cinematográfica, clicando no link.

Esses dois curtas-metragens, portanto, refletem sobre ações de inclusão e sobre como determinadas deficiências são estigmatizadas pela sociedade. Mas, acima de tudo, o principal ensinamento trazido diz respeito ao fato de que, mesmo com uma certa deficiência, as pessoas não têm limitação para serem felizes.

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