Muito além da voz: como o rádio promove a inclusão de pessoas com deficiência visual
Em meio ao crescimento do consumo de conteúdos visuais, o rádio se destaca como ferramenta de acesso à informação e abre portas para profissionais cegos.
POR: Henrique Regado.
Em junho de 2006, a Lei nº 11.327 oficializou o dia 7 de novembro como o Dia do Radialista, data de nascimento do compositor, músico e também radialista Ary Barroso. A ocasião reforça a importância do trabalho desses comunicadores, que permanece relevante mesmo diante dos desafios impostos por novas tendências de consumo da informação, cada vez mais orientadas para uma linguagem mais visual.
No levantamento Digital News Report 2025, realizado pelo Reuters Institute, 55% dos entrevistados dizem preferir ler notícias online, 31% preferem assisti-las e 15% optam por ouvi-las. Nesse cenário, o rádio ganha relevância como um meio de acesso à informação para pessoas cegas e com baixa visão, como destaca o artigo A contribuição do rádio para formação cidadã de pessoas com deficiência visual: “a linguagem audiovisual deixa algumas lacunas na informação, pois, em sua maioria, mostra imagens sem o recurso da audiodescrição. […] Além disso, por meio deste instrumento (rádio), o conhecimento da realidade vem sendo noticiado de forma conveniente a um público desprovido do recurso visual.”
A ausência de imagens não significa menor profundidade de conteúdo. Pelo contrário: no rádio, a comunicação é muito mais descritiva e direcionada à construção daquilo que não está visível. Em transmissões esportivas, por exemplo, a descrição pode ser fundamental para que o ouvinte acompanhe a partida. Henry Xavier, radialista e comentarista de futebol cego, explica:
“O que puder descrever, por exemplo, no futebol, o lado do campo que a pessoa está jogando, quem está com a bola, quem está para receber a bola, coisas que passam despercebidas por uma questão de estilo de locução, mas são muito importantes para situar quem tem qualquer tipo de dificuldade para acompanhar, é sempre válido”, disse à Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (Aerp).
Mais do que facilitar o acesso à informação, o rádio também abre espaço para que pessoas com deficiência visual ocupem o próprio lugar atrás do microfone. É o caso de Kleber Salles, radialista, locutor e apresentador cego.

Ao ingressar profissionalmente na Rádio Clube, em 2002, a rotina exigia a atuação ao lado de sonoplastas para controlar a mesa de áudio, rodar vinhetas e comerciais, enquanto ele apenas se concentrava na locução. Mas, com o avanço de softwares de leitura de tela, Salles também passou a operar os equipamentos de forma independente, utilizando a técnica conhecida como “leitura sombreada” (shadowing, em inglês).
“O que a gente usa para ouvir um texto e repetir na nossa própria voz, chama-se leitura sombreada […] O texto escrito, ele traduz para áudio e a gente ouve e vai repetindo aquilo”, explicou o radialista, em entrevista ao ManduCast.
A tecnologia ampliou a autonomia de Salles, mas ele acredita que foi a sua própria dedicação e resiliência que o ajudaram a superar preconceitos e a chegar onde chegou: “Tem pessoas que colocam a deficiência como obstáculo, […] mas eu aprendi que a gente tem que levar o nosso profissionalismo, a nossa personalidade em primeiro lugar”, afirmou o comunicador, em participação no TeletemaCast.
