Entenda como audiodescrição e impressão 3D podem tornar artes visuais mais inclusivas.
Por: Henrique Regado & Douglas Ferreira.
No dia 19 de agosto, é celebrado o Dia Mundial da Fotografia. A data presta homenagem à divulgação oficial de um dos primeiros e mais importantes processos fotográficos da história, a daguerreotipia, um método que buscava capturar a luz sobre uma placa de metal para criar imagens de maneira fixa e com alto nível de detalhe. Se no século XIX a daguerreotipia democratizou a forma de registrar o mundo por meio de imagens, hoje a fotografia também se expande para além da visão ao trazer diversos métodos que possibilitam a inclusão de deficientes visuais, tanto no consumo quanto na produção desses materiais.
Um exemplo marcante é o do brasileiro João Maia, fotógrafo cego que atuou nas três últimas edições dos Jogos Paralímpicos. Em entrevista ao Olympics.com, o piauiense afirma que a fotografia cega é uma oportunidade de explorar as próprias percepções: “Cada um tem a sua percepção, e ela pode ser explorada melhor quando você tem a ausência de uma. No meu caso, a ausência é da visão, mas eu posso estimular mais a minha audição, meu tato, meu olfato, meu paladar.”
Maia faz da sua audição aguçada um dos seus principais instrumentos para fotografar. Ele fica atento a todos os sons que ecoam pelo ambiente e, a partir dos ruídos produzidos pela movimentação dos atletas e das reações da torcida, busca transmitir o que sente nas suas imagens. “A gente também pode ver com a alma, pode ver com o coração”, afirmou o fotógrafo, ao Band Esporte Clube.
O fotógrafo também conta com uma câmera adaptada e o apoio de um assistente que, a partir da audiodescrição, relata cores, texturas, ângulos e outros elementos do ambiente para que consiga absorver o máximo das cenas em suas fotos.

Outra iniciativa que busca a inclusão de deficientes visuais na fotografia é o Fotografia Tátil, desenvolvido pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal do Ceará (UFC). O projeto, contudo, não se limita apenas à produção de imagens, como permite também que os participantes consumam as próprias criações por meio de impressões 3D.
As atividades do projeto são realizadas em três etapas. Primeiramente, os deficientes visuais passam por oficinas, nas quais aprendem técnicas de fotografia. Em seguida, os participantes são conduzidos a produzir suas próprias imagens com o apoio de monitores, estes responsáveis por descrever o ambiente, exatamente como é feito em uma audiodescrição.
Roberto Vieira, professor de design e idealizador do projeto, explica que os tutores buscam não influenciar os participantes em suas descrições: “Em nenhum momento os monitores influenciam na captação das imagens, isso fica totalmente a cargo dos participantes, que conseguem produzir as fotografias”, afirmou ao g1.
A ideia vai de encontro ao que Tiago Bonfim, audiodescritor e analista de produção da SHOWCASE PRO, aplica em seu trabalho: evitar ao máximo a subjetividade, detalhando apenas aquilo que é objetivamente visível: “Se a pessoa está feliz, se a pessoa está triste, eu não sei, mas eu posso descrever a expressão facial dessa pessoa. Então a pessoa que estiver acompanhando a audiodescrição consegue chegar nessa conclusão sozinha.”
Por fim, na última etapa, as imagens produzidas passam por um programa, cujo algoritmo cria padrões que possibilitam a impressão de uma versão tátil delas via impressora 3D. Esse material permite que os deficientes visuais possam sentir e apreciar as obras que eles mesmos produziram, por meio do tato.

Tanto a história de João Maia quanto o projeto Fotografia Tátil mostram que a acessibilidade amplia as possibilidades de percepção e interpretação da fotografia. Nesses casos, a velha máxima de que “uma imagem vale mais que mil palavras” se inverte, como sugere Tiago: “[…] Quando se fala sobre AD (audiodescrição) de uma imagem estática, a gente consegue usar mil palavras para descrever uma imagem.”


