Por Dimitrius Voliotis

A luta pela acessibilidade e pela ocupação de espaços por pessoas com deficiência envolve diversas vias e uma delas, acompanhando outros aspectos sociais que também se digitalizaram, é a internet. Nas mídias sociais, principalmente, há um número crescente de conteúdos sendo disponibilizados, dentre eles filmes e séries em serviços de streaming, música, análises em vídeos, blogs, vlogs e muitos outros que são produzidos por jornalistas, influencers e compartilhados milhares de vezes pelos usuários. 

No entanto, uma parcela muito pequena desses conteúdos é pensada para pessoas com deficiência, ou ao menos possui o básico para ser acessível. Assim, a internet nem sempre é o caminho ideal para esse debate, mas por seu alcance e facilidade de propagação de ideias, o ativismo busca levantar discussões e, aos poucos, mudar o cenário.

Conversei com Jorge Rodrigues, que é analista de mídias sociais, formado em jornalismo, fotógrafo, ativista e surdo. Além de sua função como analista, Jorge também discute sobre inclusão em suas redes (@jorgesuede), onde possui pouco mais de 3 mil seguidores. “O meu envolvimento no ativismo não foi algo pensado, sabe? Pois eu sempre percebi/notei que as pessoas me viam/tratavam de uma forma muito diferente e era sempre por causa da minha deficiência. Eu busco trazer e pautar discussões, trazer reflexões que sejam convertidas em ações. É esse o meu papel, ou pelo menos o que eu quero que seja.” 

O ativismo é presente, mas não se trata da principal ocupação de Jorge que explica sua relação com o jornalismo na crença de “que tinha o potencial para isso. […] Tive oportunidade de fazer estágios em Análise de Mídias e descobri o meu gosto em produzir análises precisas, com sugestões, propostas de melhorias e tal e em paralelo, como eu amava escrever, acabei produzindo textos bacanas sobre o ativismo, sobre ser surdo e sobre a acessibilidade em geral”. 

As redes também servem como apoio para a expressão dos hobbies, como a arquitetura e a fotografia, tipos diferentes de arte que acabam se entrelaçando, afinal, o espaço digital deve ser ocupado para quaisquer assuntos, sem esperar que pessoas com deficiência tratem exclusivamente sobre inclusão. “Vivo em uma cidade cosmopolita e, com isso, acaba sendo perceptível as  s. […] Sempre tive gosto em fotografar prédios e ter registros dos detalhes que fazem toda a diferença se visto isoladamente.” 

Jorge acrescenta que é preciso haver ainda mais debate, não só entre pessoas com deficiência. “Eu acho que as redes têm dado uma oportunidade das PcD para falarem e um dos assuntos no momento é a acessibilidade, o que torna mais fácil a visibilidade. E acho ótimo que isso esteja acontecendo. Mas no geral, sinto que as pessoas deveriam dar mais atenção e falar mais – ao invés de só ouvir. Porque quanto mais pessoas falarem, mais o assunto é debatido na sociedade como todo.”

O jornalista relata que o fato de ser surdo afetou algumas escolhas pessoais e profissionais como decidir onde iria estudar, “se o professor X vai entender e buscar adaptar as aulas ou não, se vou ter emprego decente e com um salário bacana, essas coisas acontecem (infelizmente). E já aconteceu.” 

Apesar disso, Jorge busca não se abalar e segue com projetos em favor da  inclusão como o “Manual de Acessibilidade para Redes Sociais: Um guia de como deixar as redes sociais acessíveis para as pessoas com deficiência”. Em uma linguagem objetiva e didática, o guia traz os principais pontos a serem observados para a publicação de posts, incluindo descrição de imagens e legendas para vídeos. 

Reprodução: Manual de Acessibilidade para Redes Sociais
Audiodescrição resumida: Banner com o fundo branco. “Como tornar a imagem acessível? Exemplos de descrição nas redes sociais” escrito em letras cinza no topo. À esquerda, captura de tela de um post no Instagram. Há uma foto de uma mulher branca, de olhos castanhos, segurando as bochechas com as mãos. Na legenda, abaixo da captura de tela, está escrito: “Publicação com texto alternativo no perfil d’O Boticário (embora o Instagram já tenha o recurso ALT)”. Um traço cinza, saindo da legenda do post da captura de tela, leva até às frases: “O texto alternativo traz uma descrição detalhada sobre a imagem. Embora poderia ter sido mais. Por quê? Observe no próximo slide! Evite dizer no ALT ‘a imagem’ pois o leitor de tela já sabe que é uma imagem. À direita,  captura de tela de um post do Facebook feito por Regina Casé. Na foto do post, é dia, ela e a filha estão abraçadas dentro d’água em um lugar rodeado de árvores. Na legenda abaixo da captura de tela está escrito: “Publicação com texto alternativo no perfil da Regina Casé, embora o Facebook também tenha o recurso embutido.”

Quando perguntado sobre dicas para criadores de conteúdo, aconselhou: “tornar o seu conteúdo/seu trabalho mais acessível, busque legendar os vídeos, stories, buscar tornar o ambiente onde você trabalha inclusivo para os surdos, entender como podem fazer para que eles possam querer trabalhar e evoluir com vocês.” 

O ambiente de trabalho também aparece como um fator desmotivador em alguns casos, fazendo, inclusive, com que as pessoas desistam de certas áreas, como a comunicação. “Muitos dos publicitários surdos que eu conheço não atuam mais porque crêem que o meio nunca pensa na acessibilidade e em mudar as coisas. Eu mesmo sofro com as limitações que as pessoas impõem sem perceber.” 

A falta de uso da Língua Brasileira de Sinais por parte da maioria das pessoas é, de acordo com Jorge, um dos pontos que o traz mais dificuldade em conversas no ambiente corporativo. “Com a Libras, a comunicação flui bem melhor, isso é indiscutível e sem isso, fica difícil de compreender algumas coisas mais profundas.” 
Por fim, pedi a Jorge que sugerisse conteúdos, filmes, séries, que tragam representatividade às pessoas com deficiência e debates sobre inclusão e foram lembrados a série americana Switched at Birth e o longa ucraniano Plemya, que “dispensa legenda, até porque o foco é o visual.” O jornalista citou ainda algumas figuras públicas atuantes nas redes como Thaisy Paso, Gui Fernandes, Leo Castilho, Leo Viturinno e Christine Sun Kim, artista alemã que possui trabalhos voltados para a cultura surda, além dele mesmo, é claro.

Poster de divulgação do filme Plemya
(The Tribe na tradução em inglês)

Audiodescrição resumida: Poster em tons de cinza. No centro, está escrito “The Tribe”. Há imagens sobrepostas de uma mão aberta e outra fechada, além dos rostos de um homem e uma mulher.