Lei de Cotas: 35 anos de avanços e desafios para a inclusão de pessoas com deficiência

Entenda os principais desafios para a inclusão de PcDs no mercado de trabalho e conheça medidas que ajudam a tornar esse processo mais eficaz. Por: Manuela Mineiro & Douglas Ferreira. Em 24 de julho de 1991, há 35 anos, foi sancionada a Lei nº 8.213/91, conhecida como Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência, que determina que empresas com 100 ou mais trabalhadores reservem de 2% a 5% de suas vagas para pessoas com deficiência. A implementação dessa lei é mais um passo importante na inclusão de PcDs na sociedade. Ao longo dessas três décadas, a lei contribuiu para a inclusão ampla no mercado de trabalho, como explica Karem Resende, coordenadora do “Coletivo Nacional de Trabalhadores da CUT”: “A Lei de Cotas é um marco importante porque trouxe visibilidade e obrigatoriedade na contratação de pessoas com deficiência, um avanço significativo no aumento da inclusão no mercado formal. É uma lei que ajudou a fortalecer essas pessoas a terem direito ao trabalho digno”, afirma. Segundo análise do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), nos últimos 10 anos a inclusão do trabalhador e trabalhadora com deficiência cresceu significativamente. Entre 2011 e 2021, passou de pouco mais de 324,4 mil para quase 521,4 mil, um aumento de 60,7% (quase 197 mil vínculos a mais). Mesmo com os avanços, um dos maiores desafios da implementação da lei de cotas no mercado de trabalho ainda é o preconceito e a falta de conscientização das empresas. Para Karem, o problema está na fiscalização: “A fiscalização da lei de cotas é feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mas tem sido insuficiente porque muitas empresas só são fiscalizadas quando há denúncias.” Apesar da pouca fiscalização, dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) mostram que, no mesmo período, o emprego de pessoas com deficiência cresceu 60% acima da média geral. Além disso, 93% desses trabalhadores estão em empresas que cumprem a Lei de Cotas, evidenciando a eficácia da legislação. Ainda assim, a medida continua sendo um trabalho em progresso. Pensando nisso, reunimos aqui algumas práticas que podem contribuir na etapa de seleção e inserção completa de PcDs no mercado de trabalho: Acessibilidade Física e Tecnológica: Espaços físicos: Instalar rampas, elevadores, portas largas e banheiros adaptados. Sinalização: Usar pisos táteis, braille e avisos sonoros ou visuais nos ambientes. Ferramentas digitais: Adotar softwares com leitores de tela, legendas em vídeos e materiais acessíveis. Recrutamento e Seleção: Avaliar o profissional pelas suas habilidades e experiências, e não pela deficiência. Desenhar descrições de cargo claras, entendendo quais adaptações o posto precisa sem criar barreiras falsas. Perguntar antecipadamente se o candidato precisa de algum suporte especial para participar do processo seletivo. Conscientização e Cultura: Promover palestras e treinamentos para educar líderes e equipes sobre como conviver e respeitar as diferenças. Criar canais seguros ou anônimos para que os colaboradores possam dar feedbacks sobre o ambiente de trabalho. Conversar individualmente com o funcionário para entender se ele precisa de ajustes na rotina ou no formato de entrega das tarefas.
A paixão que une milhões

Do Campeonato Brasileiro à Copa do Mundo, histórias mostram que o futebol ganha ainda mais força quando é acessível para todos. Por: Manuela Mineiro & Douglas Ferreira. No último domingo, dia 19 de julho de 2026, chegou ao fim a 23ª edição da Copa do Mundo FIFA. A Espanha conquistou o bicampeonato mundial, ganhando de 1×0 contra a Argentina, em Nova Jersey. A Seleção Espanhola de Futebol Masculino já havia sido campeã, pela primeira vez, em 2010, na África do Sul. A partida ocorreu no Metlife Stadium, estádio com capacidade para 82.500 pessoas e ampla acessibilidade a todos os públicos. O local conta com elevadores, rampas e assentos adaptados em todos os níveis e já foi amplamente elogiado por sua infraestrutura ímpar em blogs voltados para pessoas com deficiência (PcDs), como no artigo escrito em 2014 por Ricardo Shimosakai, tetraplégico e referência em acessibilidade funcional. Em seu blog, ele destacou: “Além da infraestrutura acessível, a equipe de atendimento está preparada para oferecer suporte e garantir uma experiência inclusiva a todos os visitantes.” Entretanto, essa infraestrutura acessível para um campeonato mundial está longe de ser uma realidade em campeonatos regionais, por exemplo. Em entrevista para o “ge”, Cláudio, cadeirante, e sua esposa Karla, compartilharam as dificuldades que enfrentam nos estádios: “Os problemas são diversos. Falta de informação sobre onde é a entrada do espaço acessível para o PCD, falta de salas sensoriais para os autistas, obstrução da visão porque a cadeira do público está no mesmo nível do espaço do cadeirante… Quando os torcedores se levantam, consequentemente nossa visão é atrapalhada. Uma lista enorme de problemas”, contou Cláudio. O casal visita estádios ao redor do mundo e compartilha suas experiências nas redes sociais, visando à inclusão nas partidas: “Nosso objetivo é buscar melhorias. A gente nota que um baixo número de PCDs e deficientes frequentam estádios de futebol e arenas por falta de informação. Quando falamos em futebol para todos, não é só na teoria. Tem que ser para todos, independentemente da condição física”, reforçou. Cláudio é apenas um exemplo de pessoa que, mesmo com as barreiras que uma vida com uma deficiência impõe, não deixa de exercer seu direito de torcedor. Nikkolas Grecco, de 11 anos, e sua mãe, Sílvia, foram destaque em 2018 após serem flagrados assistindo ao clássico paulista Palmeiras x Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro daquele ano, vencido pelo alviverde por 1 a 0. Os holofotes vieram ao perceberem que Nikkolas era deficiente visual e o jogo era todo narrado por sua mãe. Em entrevista para o “ge”, Silvia conta: “Tudo começou pelo amor pelo Palmeiras. Ele não podia ver os lances, mas podia senti-los como poucos. E foi assim, com o sentimento pulsando no coração alviverde, que ele conheceu o estádio por dentro: vestiu a camisa, entrou no vestiário, pisou no gramado, tocou o símbolo que tanto ama, encostou na taça da Libertadores. Por fim, escutou o hino – o som que mais mexe com ele”, explicou. Em 2019, um ano após a matéria publicada, Silvia ganhou o prêmio “Fifa Fan Award”, honraria dedicada aos torcedores e fãs de futebol durante a cerimônia Fifa The Best, em Milão. No discurso de agradecimento, Silvia Grecco emocionou a todos e fez questão de destacar também a linda história de Justo Sánchez, uruguaio fã do Cerro, mas que passou a acompanhar os jogos do rival Rampla Juniors em homenagem ao filho falecido. Histórias como essas mostram que a paixão pelo futebol vai além das diferenças e tem o poder de unir pessoas. Para que essa emoção seja vivida por todos, a acessibilidade precisa fazer parte do jogo, dentro e fora do campo. Afinal, quando todos podem torcer, celebrar e compartilhar esse momento, quem realmente vence é o futebol.
Arena Brasileira terá Libras ao vivo nos shows de abertura e encerramento

Festival une a torcida pela Seleção Brasileira a grandes shows nacionais, garantindo acessibilidade integral em Libras para todo o público no Ibirapuera. Por: Douglas Ferreira. Neste sábado, dia 13 de junho, terá início a Arena Brasileira 2026, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O evento, que terá como atração principal o jogo de estreia do Brasil na Copa do Mundo da Fifa, contará com shows de abertura e encerramento de artistas como Ivete Sangalo, Banda Eva, Thiaguinho e outros. Em eventos culturais, a acessibilidade é mais do que lei, é dever social. Neste ano, o evento contará com Libras ao vivo para os shows de abertura e encerramento produzida pela SHOWCASE. Em nota, a empresa afirma o compromisso com o público que irá usufruir da acessibilidade: “Mais do que acompanhar os horários das atrações, nosso principal objetivo como parceiros do evento é garantir que a experiência seja acessível para todo o público. Por isso, toda a transmissão e os shows contam com a nossa interpretação em LIBRAS. Nossa equipe trabalha para interpretar o ritmo, as letras e a emoção de cada momento, integrando acessibilidade de forma natural à estrutura do evento.” A agenda de shows irá até o fim da Copa do Mundo e contará com shows até em datas sem jogos. Segue a agenda de eventos e atrações: DATA E HORA JOGO ATRAÇÕES 13/06 – 12h às 22h Brasil x Marrocos Ivete Sangalo e Péricles. 14/06 – 12h às 22h Não haverá jogo. Matuê, MC Cabelinho, Teto e Wiu. 19/06 – 15h às 00h Brasil x Haiti Anitta e Dilsinho. 20/06 – 15h às 22h Não haverá jogo. Caetano Veloso, Marina Sena e Silva. 24/06 – 13h às 22h Brasil x Escócia Turma do Pagode e Ludmilla. 27/06 – 12h às 22h Não haverá jogo. Os Paralamas do Sucesso, Jota Quest, Toni Garrido e Samuel Rosa. 29/06 – 11h às 22h 16-avos de final. Wesley Safadão e Léo Santana. 04/07 ou 05/07 A confirmar. Dennis e Natanzinho. 09/07 ou 11/07 A confirmar. Belo e Nattan. 12/07 – 12h Não haverá jogo. Vanessa da Mata, Ana Carolina, Lagum e IZA. 14/07 ou 15/07 Semi-Final. Sorriso Maroto e Léo Foguete. 18/07 – 13h Não haverá jogo. Marisa Monte, João Gomes e Jota.Pê 19/07 – 13h Final. Banda Eva e Thiaguinho.
15 anos de GAAD: um convite para repensar o mundo digital

Enquanto o mundo celebra a inclusão, o Brasil enfrenta o desafio de ter menos de 3% de seus sites acessíveis. Por: Manuela Mineiro e Douglas Ferreira. Nesta quinta-feira, dia 21 de maio de 2026, será realizada a 15.ª edição do GAAD: Global Accessibility Awareness Day (Dia Mundial da Conscientização sobre Acessibilidade). O evento, criado em 2012 pelo desenvolvedor americano Joe Devon e pelo profissional de acessibilidade e deficiente visual canadense, Jennison Asuncion, é anualmente realizado na terceira quinta-feira do mês de maio. Ele terá participação gratuita e será composto por apresentações virtuais e ações presenciais de empresas convidadas, com o objetivo de incentivar conversas e aprendizado sobre inclusão digital e acessibilidade para pessoas com deficiência ou limitações. O evento já foi realizado em diversos países, como em 2020, numa edição histórica, em que o Serviço Digital do Governo do Reino Unido realizou um dia de eventos exclusivamente online para aumentar a conscientização sobre a acessibilidade digital. No Brasil, em 2015, foi criada a Lei n.º 13.146/2015, conhecida como Lei Brasileira de Inclusão (LBI), ou Estatuto da Pessoa com Deficiência. Entre muitos avanços, a norma, baseada na convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, tornou a acessibilidade obrigatória em sites de qualquer empresa ou órgão público, por meio de legendas em vídeos, descrição de imagens, contraste adequado, navegação por teclado, formulários corretamente identificados, links descritivos e ausência de elementos piscantes. Contudo, segundo relatório da BigDataCorp com a Movimento Web para Todos, de 2024, apenas 2,9% dos 26,3 milhões de sites ativos no Brasil são plenamente acessíveis. Nota-se então que, mesmo com normas e leis, a acessibilidade digital ainda é uma pauta em progresso. Desta forma, para construir uma internet mais inclusiva, precisamos pensar em como deixar os veículos de informação mais acessíveis, por meio de algumas especificações, como explicou Daniel Rufini, Coordenador de Treinamento e Acessibilidade da MicroPower, para o blog Virtual Vision: “Todas as informações de uma página acessível devem ser apresentadas em texto e com navegação via teclado. Isso significa que, se for usada alguma outra mídia, como imagens e sons, as informações que elas contêm devem ser repetidas numa descrição textual. Essa descrição deve ser “equivalente”, isto é, deve transmitir as mesmas informações que os elementos disponibilizados, para que a pessoa com deficiência visual entenda, navegue, interaja e contribua para a internet.” A autonomia de se navegar pela internet é um direito de todo cidadão. Além de cumprir a lei, promover acessibilidade é garantir a participação e acesso à informação por milhares de pessoas, como será reforçado neste dia 21 de maio. Em uma era tecnológica, discutir práticas inclusivas na internet deixa de ser apenas uma necessidade técnica e passa a ser um compromisso social.
Trabalho Híbrido e Acessibilidade: Novas perspectivas para a inclusão

Como as inovações tecnológicas ampliam o debate sobre acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência no ambiente corporativo. Por: Andreza Pereira e Douglas Ferreira Atualmente, estima-se que cerca de 545,9 mil trabalhadores com deficiência estejam inseridos no mercado formal, segundo dados do eSocial. Esse número está relacionado à implementação e à fiscalização da Lei de Cotas (Lei nº 8.213/91), que estabelece a obrigatoriedade de contratação por empresas com mais de 100 colaboradores. No entanto, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, indicam que a participação dessa população no mercado de trabalho ainda é significativamente inferior à da população sem deficiência, evidenciando que, apesar dos avanços legais, a inclusão ainda não ocorre de forma plenamente equitativa. Nesse contexto, mudanças na dinâmica de trabalho possibilitam que os debates sobre acessibilidade avancem para além do ambiente físico das empresas. A consolidação da tecnologia assistiva como pilar central da jornada laboral possibilitou que a inclusão fosse repensada a partir de novas perspectivas, levando em consideração não apenas a estrutura física, mas, principalmente, as interações e ferramentas digitais que eliminam barreiras de comunicação e execução de tarefas. Sendo assim, a acessibilidade digital assume um papel estratégico para que essa inclusão seja efetiva. O uso constante de plataformas colaborativas e diversas ferramentas de comunicação exige a adoção de recursos que garantam o entendimento claro de informações, como, por exemplo, a disponibilização de legendas automáticas e softwares de reconhecimento de voz, garantindo pleno acesso à vasta diversidade de formatos de interação. A promoção da acessibilidade corporativa por meio de soluções tecnológicas vai além da inserção de ferramentas inclusivas, mas, sobretudo, do desenvolvimento de uma cultura organizacional voltada para a diversidade e equidade. Integrando essas práticas, as empresas garantem a inclusão de pessoas com deficiência e contribuem para a formação de um espaço inovador, colaborativo e alinhado às novas tendências do mercado de trabalho.
Parques acessíveis: O direito ao verde além da legislação

Garantir o acesso aos espaços verdes vai além da legislação e exige ações contínuas para promover inclusão, autonomia e bem-estar. Por: Andreza Pereira Hoje, dia 22 de abril, é celebrado o Dia Mundial da Terra. Nessa data, refletir sobre o acesso democrático à natureza se torna essencial. O contato com ambientes naturais é reconhecido como um pilar essencial para a manutenção da saúde física e mental do ser humano, além de contribuir para a prevenção de doenças e promoção do bem-estar, conforme pesquisa elaborada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para que todos os indivíduos consigam desfrutar dessa experiência de maneira plena, é necessário eliminar barreiras de acesso, garantindo a inclusão e a acessibilidade nos espaços naturais e de uso público. Nesse cenário, o projeto Viva o Verde SP, realizado pela ONU-Habitat e SVMA (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente), produziu um diagnóstico em 102 parques municipais, visando entender como transformar essas áreas em espaços verdadeiramente inclusivos. Utilizando o conceito de Desenho Universal, que visa criar espaços que possam ser utilizados por todas as pessoas, independentemente de suas características físicas. O estudo estabeleceu indicadores técnicos que avaliam desde a inclinação de rampas de acesso até a presença de sinalização tátil. Os resultados revelaram que, para garantir acessibilidade efetiva e autonomia no exercício do direito ao lazer, é fundamental a padronização de rotas acessíveis. A promulgação da Lei n.º 10.098, de 2000, estabelece que a acessibilidade em áreas públicas, como, por exemplo, os parques, passou a ser obrigatória, trazendo como principal objetivo a eliminação de barreiras, incluindo obstáculos arquitetônicos e urbanísticos. Em São Paulo, locais como o Parque Ecológico Imigrantes e a Trilha do Silêncio, no Parque Estadual do Jaraguá, contam com estruturas adaptadas para que pessoas com diferentes tipos de deficiência possam desfrutar da experiência sem obstáculos. Em alguns casos, também são oferecidos roteiros acompanhados por monitores e profissionais capacitados, mediante agendamento. Apesar da legislação, a consolidação dessas medidas depende da fiscalização contínua do poder público. O monitoramento garantirá que as adaptações físicas e sensoriais funcionem para além da implementação, mas que operem em pleno funcionamento, de forma a impulsionar que os investimentos realizados sejam revertidos em benefícios permanentes à saúde e ao bem-estar de toda a população.
Do Silêncio de 1824 à Voz de 1988: A Evolução da Acessibilidade no Brasil

Do apagamento à garantia de direitos: o longo caminho da acessibilidade no Brasil. Por Andreza Pereira e Douglas Ferreira. Neste dia 25 de março, relembramos o aniversário da primeira Constituição do Brasil, outorgada pelo Imperador Dom Pedro I, em 1824. Embora tenha sido o ponto de partida da nossa independência, com muitos avanços políticos para a época, a exclusão social ainda configurava-se como regra, deixando à margem quem não se encaixava no padrão de “cidadão” daquele século. Um exemplo disso é o fato de que a dignidade das pessoas com deficiência foi totalmente ignorada, e termos como “acessibilidade” e “inclusão” sequer existiam na carta. Além disso, não existiam leis que garantiam o direito de circulação nos espaços públicos, que eram marcados por barreiras visíveis e invisíveis, além da falta de respaldo quanto ao acesso ao mercado de trabalho. A reversão desse cenário levou mais de 160 anos para acontecer, com a Constituição Cidadã de 1988, promulgada por Ulysses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte. O documento garantiu proteção social às pessoas com deficiência, proibindo discriminações e determinando a integração social, um avanço que contribuiu significativamente para tirar essa parcela da população da sombra e do ostracismo. Para entender melhor o abismo que separava essas duas realidades, segue abaixo o comparativo entre alguns trechos do texto de 1824 e as conquistas de 1988 em diversas áreas: ÁREA CONSTITUIÇÃO DE 1824 CONSTITUIÇÃO DE 1988 EDUCAÇÃO Sem previsão de acesso para pessoas com deficiência. Direito garantido, com promoção da inclusão. TRABALHO Nenhuma proteção ou política de inclusão. Proibição de discriminação e incentivo à inclusão profissional por meio de cotas. TRANSPORTE Não contemplado; barreiras impediam a locomoção. Diretriz para acessibilidade e mobilidade. CIDADANIA Restrita a uma parcela da população. Universalização de direitos e inclusão social. fonte: https://revistadadpu.dpu.def.br/article/view/203 Nesse contexto, é fundamental que os direitos já previstos constitucionalmente sejam cada vez mais fortalecidos e defendidos, visando à garantia efetiva da inclusão das pessoas com deficiência e à eliminação das barreiras que ainda limitam sua plena participação na sociedade, exigindo um compromisso contínuo com a inclusão e a equidade, assegurando a dignidade e a qualidade de vida daqueles que historicamente foram excluídos e que ainda enfrentam obstáculos para exercer plenamente sua cidadania.
Investimentos federais ampliam ações de acessibilidade e inclusão com foco em 2026

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) divulgou, em dezembro de 2025, um balanço das ações realizadas ao longo do ano voltadas à acessibilidade e à inclusão de pessoas com deficiência, além de apresentar metas estratégicas previstas para 2026. As iniciativas fazem parte do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Novo Viver sem Limite, que reúne políticas públicas em diferentes áreas. Segundo o ministério, o plano contempla mais de 90 ações organizadas em eixos como gestão inclusiva, acesso a direitos sociais, tecnologia assistiva e promoção da autonomia. Estados e municípios vêm sendo incentivados a aderir ao programa, com o objetivo de ampliar a implementação das medidas em âmbito nacional. Saúde e tecnologia assistiva Na área da saúde, o MDHC informou a habilitação de novos Centros Especializados em Reabilitação (CER) e a ampliação de Oficinas Ortopédicas, responsáveis pela produção e adaptação de próteses, órteses e cadeiras de rodas. As ações incluem ainda iniciativas voltadas à oferta de tecnologia assistiva para pessoas com deficiência que vivem em áreas rurais. De acordo com a pasta, essas medidas buscam reduzir a demanda reprimida por serviços de reabilitação e ampliar a autonomia funcional dos usuários. Educação e transporte escolar No campo educacional, o balanço aponta a entrega de ônibus escolares acessíveis, investimentos em escolas com foco na educação inclusiva e a distribuição de materiais pedagógicos adaptados, como livros em Braile. Também foram realizadas ações de formação de professores e gestores, com conteúdos relacionados à educação especial inclusiva e ao uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras). No ensino superior, o governo destinou recursos para a contratação de profissionais de apoio a estudantes com deficiência e para a manutenção de núcleos de acessibilidade em universidades federais. Cultura, esporte e mobilidade Outras iniciativas citadas incluem o apoio a programas de paradesporto, com a criação de núcleos voltados à prática esportiva inclusiva, e ações voltadas à acessibilidade em espaços públicos, como aeroportos. Entre elas está a implantação de salas multissensoriais para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a elaboração de guias de boas práticas em acessibilidade na aviação civil. O MDHC também mencionou investimentos em projetos culturais e audiovisuais acessíveis, além de parcerias com instituições de ensino e organizações da sociedade civil. Monitoramento e participação social De acordo com o ministério, as ações são acompanhadas por mecanismos de monitoramento e avaliação, além de espaços de participação social. Em 2025, foram realizados encontros com representantes da sociedade civil, gestores públicos e grupos específicos, como mulheres com deficiência, para discutir demandas e ajustes nas políticas em andamento. O MDHC destacou ainda o desenvolvimento de estudos e sistemas relacionados à avaliação biopsicossocial da deficiência, com o objetivo de padronizar critérios e subsidiar políticas públicas baseadas em dados. Perspectivas para 2026 Para 2026, a pasta afirma que a prioridade será a continuidade e o aprofundamento das ações já iniciadas, com foco na consolidação do plano nacional e na ampliação do alcance das políticas de acessibilidade e inclusão. O desafio apontado é garantir que os investimentos se traduzam em melhorias concretas no acesso a serviços e direitos para pessoas com deficiência em diferentes regiões do país..
Inclusão PcD no humor brasileiro

Humoristas que trazem inclusão PCD para os palcos e telas do país. Por Leonardo Piza Uma das melhores formas de unir os indivíduos de uma sociedade é pelo humor. A todo momento, pessoas são conquistadas por algo que lhes arranca um sorriso sincero ou uma gargalhada espontânea. Seja uma piada, trocadilho, meme, imitação, etc. Atrair, conquistar e divertir é o principal papel exercido pelos profissionais da comédia, sempre criando proximidade com o público em apresentações ou vídeos de humor. No Brasil não seria diferente. Fazer piada de tudo é uma característica única e peculiar do nosso povo, e em matéria de talento e versatilidade, nossos comediantes dão o nome. E é claro que nossos humoristas PcD não ficam para trás. Por isso, separamos uma lista de profissionais do humor que apresentam alguma deficiência para nos inspirar com suas histórias de vida e suas carreiras de sucesso. Gigante Léo: Leonardo Reis, conhecido artisticamente como Gigante Léo, tem displasia diastrófica, um tipo de nanismo. Seus pais não possuem nanismo, porém ambos possuem o gene recessivo, o que explica o nanismo recessivo do filho. Começou no teatro aos 9 anos de idade, apresentando em um grupo de teatro na igreja em que frequentava. Ele começou a ganhar projeção nacional em 2011 ao ser o vencedor da regional Sudeste II e o vice-campeão geral do 1º Campeonato Brasileiro de Stand-up Comedy, promovido pelo festival Risadaria, maior evento do humor da América Latina. Em 2012, foi o campeão do Prêmio Multishow de Humor sendo a nova revelação do canal Multishow. Em seguida, iniciou sua carreira como roteirista, escrevendo seu programa, “O Diário do Gigante”, junto com Ulisses Mattos. Além disso, foi convidado a fazer participações em programas de emissoras como: TV Globo, SBT e Record. Em 2017, protagonizou o filme Altas Expectativas, que conta a história de um treinador de cavalos verticalmente desfavorecido que tenta conquistar a dona de um Jockey Clube do Brasil. Em seus stand-ups, Gigante Léo gosta de voltar seus textos para a reação das pessoas ao ver e interagir com alguém com nanismo nas ruas, sempre de uma forma divertida. Seu foco nunca foi falar sobre dificuldades enfrentadas, muito menos zombar de pessoas que também possuam a deficiência. Trecho do stand-up: “Eu gostaria de dar dois avisos muito importantes: o primeiro deles é que eu não estou de joelhos. […] O segundo aviso é que não precisa ter medo. Eu não vou descer do palco, eu não mordo.” “Todos somos iguais, apenas temos dificuldades diferentes”. – Gigante Léo. Jeffinho: Jefferson Farias, mais conhecido como Jeffinho, é ator e comediante. Ele possui deficiência visual devido a uma atrofia no nervo ótico, que é sequela de uma trombose cerebral que ele teve aos 11 anos de idade. Jeffinho começou na profissão aos 17 anos e chegou a estudar História na UFF, mas acabou se formando em Teatro pela UniverCidade. Em agosto de 2009, ele assistiu um show de stand-up pela primeira vez na vida e se interessou pelo formato. Determinado, pediu para subir no palco e utilizou o material que tinha consigo. Desde então nunca mais parou de se apresentar. Um de seus personagens mais famosos como ator foi o Ceguinho, em “A Praça é Nossa“, no SBT. No final de 2020, aos 30 anos, ele publicou seu livro “Eu decidi enxergar”, que traz histórias inéditas de sua trajetória enquanto artista e curiosidades dos bastidores ao longo de sua primeira década de carreira. Além de ministrar palestras motivacionais, o comediante encena espetáculos de humor por todo o Brasil, como o “Ponto de Vista“. O comediante procura falar sobre as situações engraçadas de seu dia a dia e a “falta de tato” que as pessoas têm ao se dirigir a deficientes visuais. Ele explica ainda que, em seus shows, não tira sarro de deficientes visuais, mas leva na brincadeira o que as pessoas dizem para ele. “As pessoas não vão para o teatro para rir do cego, elas vão para rir delas mesmas. Elas pensam: ‘ih, realmente, quando eu ajudei uma pessoa com deficiência visual eu fiz isso mesmo’” – afirma Jeffinho. Trecho do stand-up: “Eu tava na balada, uma menina me chamou de deficiente ‘audiovisual’. Quer dizer, eu tô sem som e sem imagem, brother.” “Rir é remédio. É defesa e remédio.” – Jefferson Farias. Ceguinho: Geraldo Magela, apelidado carinhosamente pelo público como Ceguinho, é conhecido em todo o Brasil e no exterior por seu humor e criatividade na superação de sua deficiência visual. Nascido em Belo Horizonte, ele vem de uma família composta por oito irmãos, sendo cinco cegos. Todos acometidos por uma doença conhecida como retinose pigmentar, que provoca perda gradativa da visão. Quanto ao Geraldo, teve dificuldade para enxergar já na infância, e o quadro piorou quando tinha aproximadamente 22 anos. Inspirado pelos programas de rádio que ouvia na adolescência, fez locuções em lojas da cidade natal como propagandista anunciando produtos. A carreira artística começou no rádio. Como ouvinte, ganhou um concurso do programa de Aldair Pinto, grande nome do rádio mineiro. Rapidamente Ceguinho ganhou seu próprio programa de rádio por conseguir conquistar o público de forma única e criativa. Trabalhou em diversas emissoras mineiras: Rádio Inconfidência, Rádio Capital, Rádio Itatiaia. Magela viu sua carreira decolar em 1996, quando lançou o show “Ceguinho é a Mãe” no programa Jô Soares Onze Meia, no SBT. O artista permanece atuante na TV, teatro, e também na Internet. E passou a ser bastante requisitado por diversas empresas e municípios para transmitir sua mensagem cativante em palestras show pelo país. Trecho do stand-up: “A maioria como faz pra atravessar o cego? Pega a gente pelo braço, suspende o braço da gente e aperta. Mas aperta com tanta força que dá impressão que eles têm medo da gente fugir. Eu não quero fugir, eu só quero atravessar a rua.” “Você nunca deve parar, pois quem para só anda para trás. Se você não tentar, já estará derrotado antes mesmo de seguir em frente.” – Ceguinho. Pequena Lô: Lorrane Silva, conhecida por toda a internet
Primeiro personagem com síndrome de down da Disney e o valor da representatividade

Por Ana Andrade Lançado em 28 de abril diretamente pelo Disney+, serviço de streaming de um dos estúdios mais famosos do mundo, Peter Pan & Wendy chama atenção para além da história original sendo recontada, trazendo a representatividade que os tempos atuais exigem ao mesmo tempo em que conserta os erros de sua inspiração. Com 15 anos, o ator Noah Matosfky revoluciona ao interpretar o primeiro personagem importante portador de síndrome de down em um filme da Disney. Tendo conseguido o papel em 2021, o garoto marca sua estreia no cinema interpretando Slightly, o líder dos meninos perdidos, grupo que também é liderado por Peter Pan. Em entrevista para o The Sun, o ator contou um pouco sobre sua experiência no live-action: “Tive muitas falas para aprender muito rapidamente, mas foi emocionante e eu gostei muito”. (Cartaz do ator Noah Matifsky para o filme) OUTROS ACRÉSCIMOS AO ELENCO Além da estreia do ator, o filme também conserta um problema vindo de sua origem: A personagem Tiger Lily. Indígena, a personagem e sua tribo foram representados de forma estereotipada em toda a animação, algo inadmissível para a nova obra. David Lowery, roteirista do novo filme, deu uma entrevista para a Entertainment Weekly em 2018 e aproveitou para esclarecer o assunto antes durante a produção: “O filme original do Peter Pan é obviamente muito racista. Isso tem que ser reparado imediatamente.” Outro acréscimo no elenco foi a atriz Yara Shahidi como Tinker Bell. Ao ser anunciada, a atriz norte-americana sofreu ataques racistas pela internet, sendo apoiada por Halle Berry, a intérprete da Ariel em A Pequena Sereia (2023). Após o lançamento, a atuação de Yara foi elogiada por parte do público. A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTATIVIDADE A representatividade que esse filme traz, uma das maiores em filmes da Disney, chama a atenção de forma positiva, ainda que de forma tardia. Após anos com histórias apenas de personagens brancos e sem deficiência, a abertura para mais diversidade nas tramas e no elenco vem para representar uma humanidade tão plural como a nossa, mesmo em um filme de fantasia. Afinal, as obras são justamente para crianças, e a alegria delas em se verem na tela deve ser valorizada, e também protegida. Porém, o caminho para que as pessoas entendam a importância e o foco dessa representatividade após anos com um padrão milimetricamente definido ainda é longo, envolvendo muito mais do que o cinema. Poucas são as alterações feitas em live-actions ou outros tipos de adaptações que não recebem comentários de ódio. Os focos são, principalmente, em mudanças de etnia e sexualidade. Em alguns casos, atores e atrizes são obrigados a limitar comentários em suas publicações, ou então apagar suas próprias redes sociais para que ataques diretos cessem. As críticas, muitas vezes, são baseadas na versão original da obra. Em Peter Pan & Wendy, por exemplo, ataques racistas foram feitos porque a Tinker Bell, em diversas animações, é branca e loira. No live-action mais recente, porém, sua intérprete é negra. O mesmo acontece em A Pequena Sereia, com estreia programada para 25 de maio de 2023, onde a protagonista é interpretada por Halle Berry, também negra. Em um mundo preconceituoso, mudanças como as citadas também são atos de coragem, principalmente dos atores, alvos dos ataques de ódio, principalmente virtuais. Porém, para as crianças, uma maior representatividade pode lhes mostrar que sim, ela pode ser o que quiser. Desde menino perdido, fada ou até uma sereia.
Comemorações em Libras incentivam a inclusão de torcedores surdos

Através da Língua Brasileira de Sinais, jogadores celebram os gols marcados e promovem a inclusão social. Por: Thammy Luciano Celebrar um gol feito pelo jogador do seu time do coração em uma partida de futebol é algo inexplicável. E se durante uma comemoração você se sentir parte daquele momento repleto de emoções? Promovendo a inclusão social, o futebol tornou-se uma ferramenta de mudanças que vão além das quatro linhas e passou a ser um espaço que possibilita dar visibilidade à comunidade surda brasileira. As comemorações na Língua Brasileira de Sinais (Libras) têm se popularizado. Em 2019, Gabriel Barbosa, atacante do Flamengo, em Libras, disse após marcar um gol em partida pelo Campeonato Brasileiro: “Hoje tem gol do Gabigol.” Na final da Copa do Brasil, em outubro de 2022, disputada por Flamengo e Corinthians, o atacante Pedro também comemorou o gol que abriu o placar do jogo com uma frase em Libras: “Jesus é o caminho, a verdade e a vida”, uma passagem bíblica de João 14:6. Foto: (Reprodução/ESPN) Em abril deste ano, Thiago Galhardo, atacante do Fortaleza, marcou contra o Águia Marabá pela Copa do Brasil e também falou na Língua Brasileira de Sinais. Na ocasião, o atleta disse a frase: “Jesus ama você”, a mesma comemoração foi feita por Gabriel Pec, do Vasco, ao marcar contra o Palmeiras no mesmo mês. Em todas as ocasiões, os atletas reforçaram a necessidade de incluir os torcedores surdos e proporcionar a eles as emoções do futebol. Assim, o esporte assume a posição de instrumento de mudanças sociais, incentivando não somente a inclusão das pessoas surdas, mas também abrindo espaço para novas ações voltadas à toda comunidade. Foto: (Mateus Lotif/Fortaleza EC) Libras A Língua Brasileira de Sinais é reconhecida como uma das línguas oficiais do Brasil há 21 anos pela Lei de nº 10.436. Falar em Libras possibilita uma comunicação padronizada, entretanto, é uma língua viva e, por isso, novas expressões estão sempre surgindo. Aprender Libras estimula o desenvolvimento social e emocional da pessoa surda, daqueles que são parte do seu convívio e de todos que desejam falar a Língua Brasileira de Sinais. Além de incluir os torcedores surdos, falar em Libras em um momento onde toda a atenção está voltada ao jogador, permite que o público compreenda a necessidade de refletir sobre as dificuldades enfrentadas cotidianamente pelas pessoas surdas e aprender mais sobre a língua. Referências: https://ge.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/hoje-tem-gol-do-gabigol-apos-problema-com-cartaz-atacante-do-flamengo-usa-libras-para-comemorar.ghtml http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/dia-nacional-da-libras https://www.educamaisbrasil.com.br/educacao/noticias/a-lingua-brasileira-de-sinais-como-ferramenta-de-inclusao-social https://www.gov.br/pt-br/noticias/assistencia-social/2022/04/lei-que-institui-a-lingua-brasileira-de-sinais-completou-20-anos https://www.opovo.com.br/esportes/futebol/times/fortaleza/2023/04/12/galhardo-do-fortaleza-comemora-gol-em-libras-saiba-o-que-ele-disse.html https://www.supervasco.com/noticias/gabriel-pec-comemora-gol-em-libras-video-365396.html https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/10/19/entenda-o-que-pedro-disse-em-libras-apos-gol-do-flamengo-contra-corinthians.htm
Governo Federal retoma políticas de assistência à pessoas com deficiência

Por Gabriel Viera Nova composição do Governo Federal retoma políticas de assistência à pessoas com deficiência, medidas contrastam com atitudes tomadas pela gestão anterior. O início do terceiro mandato não-consecutivo de Luís Inácio Lula da Silva (PT), foi marcado por atitudes direcionadas ao asseguramento de direitos para pessoas com deficiência. Na cerimônia de posse, o influenciador Ivan Baron, que possui mobilidade reduzida por consequência de meningite viral, foi um dos oito convidados para passar para o petista a faixa presidencial. Ainda no primeiro dia de legislatura, Lula revogou duas Medidas Provisórias não condizentes com as diretrizes do Estatuto da Pessoa com Deficiência estabelecidas no governo anterior, de Jair Messias Bolsonaro (ex-PL). As atitudes são simples, mas marcam o início de um novo contexto sócio-político para as pessoas com deficiência, que nos últimos quatro anos, tiveram secretarias e normatizações sucateadas em contraposição a mais de uma década de assistência crescente. A primeira MP revogada por Lula foi o de n° 10.177/2019, que reconfigurava o aparelhamento institucional do Conselho Nacional das Pessoas com Deficiência (Conade), dificultando significativamente seu funcionamento. O decreto foi elaborado sem a participação social de pessoas com deficiência e cessou atividades do órgão durante meses. A segunda MP foi a de n° 10.502/2020, que, em plena pandemia, instituiu a Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida, que promovia a criação de escolas exclusivas para PCDs e possibilitava a instituições não-acessíveis recusar efetuar a matrícula de estudantes com deficiência, em vez de providenciar mecanismos de inclusão. A Medida entrava em confronto com o Decreto n° 6.094/2007, regulador da Política Nacional de Educação Especial na perspectiva Inclusiva, que estimula a criação de políticas públicas de atendimento adaptado a esses alunos. Na cerimônia de posse, Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, acompanhado por oito civis, representantes de oito dos grupos de diversidade que constituem o Brasil. Dentre eles, estava Ivan Baron, influenciador digital. O jovem conta com quase 500 mil seguidores nas suas redes sociais e produz conteúdo anti-capacitismo, provendo informações, reflexões e discussões sobre acessibilidade, inclusão e direitos das pessoas com deficiência. Ivan possui mobilidade reduzida, pois aos três anos sofreu paralisia cerebral após contrair meningite viral. “Acolher quem é desacreditado e ressignificar o destino que já foi traçado”, dizia escrita na jaqueta do jovem que passou, quando criança, por uma paralisia cerebral resultante da infecção. Ainda nos primeiros dias do novo governo, o nome de Anna Paula Feminella foi anunciado como o mais novo responsável pela direção da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, SNDPD. Na cerimônia de posse, realizada durante a 131ª Reunião Ordinária do Conselho do Conade, a especialista em educação e inclusão de pessoas com deficiência contou assinou, com Marco Menezes, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, um acordo de parceria com o grupo oriundo da Fiocruz, retomando três dos pilares que mais dificultaram o exercício da cidadania das PCDs na última gestão: inclusão, educação e saúde. Fontes: https://www.terra.com.br/amp/nos/propostas-do-governo-lula-para-a-populacao-com-deficiencia-sao-minimas-e-obvias,095020a2918657226d0047c77036abf0bafj3n73.html https://www1.folha.uol.com.br/amp/educacao/2023/01/ato-de-lula-poe-fim-a-inseguranca-juridica-de-alunos-com-deficiencia-diz-especialista.shtml https://portal.fiocruz.br/noticia/ensp-e-secretaria-nacional-dos-direitos-da-pessoa-com-deficiencia-assinam-acordo-de https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2023/01/24/nao-existe-inclusao-sem-acessibilidade-governo-lula-ainda-derrapa-no-tema.htm?cmpid=copiaecola https://guiadoestudante.abril.com.br/noticia/lula-revoga-decreto-de-bolsonaro-que-segregava-estudantes-com-deficiencia/amp/
PcDs no Mercado de Trabalho e as barreiras persistentes do Capacitismo

Por Helena Simionatto A inclusão e a acessibilidade no mercado de trabalho são temas que ganharam grande destaque nas últimas décadas, impulsionados pela crescente conscientização sobre os direitos das pessoas com deficiência e pela necessidade de promover a diversidade e a equidade nas empresas e na sociedade como um todo. Com decretos de leis que fundamentalmente garantem os direitos das pessoas com deficiência, é quase impossível ouvir alguém dizer que é contra a inclusão e a acessibilidade, inclusive, as empresas cada vez mais divulgam adotar práticas inclusivas em seus processos seletivos e rotinas de trabalho. Nesse processo, temos alguns marcos de extrema importância, como a Lei de Cotas que, desde 1991, obriga empresas a garantirem a contratação de uma porcentagem de pessoas com deficiência, e da promulgação da Lei Brasileira de Inclusão, que entrou em vigor no ano de 2015 e consolidou uma série de direitos discutidos na Convenção dos Direitos das Pessoas com deficiência, promovido pela ONU. No entanto, ainda há muito a ser feito para que essas leis sejam de fato aplicadas e para que a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho se torne uma realidade efetiva. Apesar dos avanços conquistados, as estatísticas revelam que essa ideia de inclusão e acessibilidade não reflete exatamente o que ocorre na realidade, apontando para uma persistência de barreiras e preconceitos que dificultam que essas iniciativas sejam colocadas em prática. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2019, mesmo antes do impacto causado pela pandemia COVID-19, o número de pessoas com deficiência formalmente empregadas correspondia a apenas 0,98% dos trabalhadores com carteira assinada, sendo que, segundo o IBGE, pelo menos 25% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Essa discrepância pode ser explicada, em parte, pela falta de regulamentação específica e aplicabilidade das propostas apresentadas pela legislação. Embora os avanços e diretrizes alcançados tenham sido importantes, sua implementação ainda enfrenta muitos desafios e obstáculos, sendo o capacitismo um dos principais deles. Mas o que é o Capacitismo? O capacitismo é uma forma de discriminação ou preconceito contra pessoas com deficiência, que se baseia na crença de que a deficiência é uma condição negativa ou inferior. A suposição de que corpos com deficiência têm menos valor, são menos capazes ou menos inteligentes está atrelada a construções sociais reforçadas há séculos e que limitam a participação plena e igualitária de pessoas com deficiência na sociedade. Essas construções sociais criam barreiras físicas ou de comunicação que dificultam o acesso de pessoas com deficiência a oportunidades culturais, educacionais e profissionais, restringindo-as a atividades consideradas mais fáceis ou menos qualificadas. Essas barreiras podem ser visíveis ou invisíveis, e muitas vezes são perpetuadas pela falta de conhecimento e conscientização sobre as necessidades e habilidades das pessoas com deficiência. Por exemplo, muitas empresas ainda não oferecem adaptações razoáveis para seus funcionários com deficiência, como equipamentos de tecnologia assistiva, intérpretes de língua de sinais ou rampas de acesso. Além disso, muitas vezes há uma falta de representação adequada de pessoas com deficiência na mídia e na cultura popular, reforçando estereótipos negativos e limitantes. O capacitismo também pode se manifestar em atitudes e comportamentos que desconsideram as necessidades e desejos das pessoas com deficiência, como a infantilização, a superproteção ou a negação de sua autonomia. Essas atitudes podem levar a uma falta de respeito pelos direitos das pessoas com deficiência e impedir seu pleno desenvolvimento e participação na sociedade. É importante destacar que o capacitismo não se limita apenas a essas crenças e discriminações explícitas. Podemos pensar “Mas eu não acho que PdDs são inferiores, logo, não sou capacitista”, mas ele também pode se manifestar de outras formas, como por meio de piadas ou da adjetivação das deficiências para uso pejorativos. Muitas vezes, essas expressões são tão comuns e naturalizadas na sociedade que parecem estar desconectados de seus significados originais, mas é fundamental que eles sejam resgatados e reconhecidos, questionar sua origem e o que representam. Para combater o capacitismo, é necessário reconhecer e valorizar a diversidade humana e a contribuição das pessoas com deficiência em todas as áreas da sociedade. Por isso, é fundamental que as pessoas estejam atentas às suas próprias atitudes e comportamentos, ao mesmo tempo, em que as empresas se esforcem para adotar de fato medidas de acessibilidade e adaptação, capacitação e valorização das pessoas com deficiência, ofertando oportunidades de desenvolvimento e progressão na carreira, além da promoção de um ambiente de trabalho acolhedor, respeitoso e livre de preconceitos. O capacitismo é um problema grave e generalizado em muitas sociedades, ao adotarmos essas medidas, estaremos não apenas combatendo esse problema, mas também promovendo a inclusão e a diversidade no ambiente de trabalho e na sociedade como um todo. Referências https://www.forbes.com/sites/roberthart/2023/03/08/elon-musk-apologizes-after-publicly-mocking-disabled-twitter-employee/?sh=632f62b6455d https://noticias.unb.br/112-extensao-e-comunidade/5957-mesa-redonda-discute-inclusao-de-pessoas-com-deficiencia-no-mercado-de-trabalho-e-na-universidade https://www.rhportal.com.br/artigos-rh/mercado-de-trabalho-para-pcd/
Inclusão na educação e as atuais alterações políticas

Por: Catrina Jacynto Logo após o empossamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi revogado o Decreto nº 10.502/2020 do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, o qual originalmente alterou as regras para acesso à educação especial, prejudicando o atendimento a estudantes com deficiência. Tal ato não apenas foi um reflexo da transição política, como também representou a reconquista de uma série de direitos que são previstos em lei para a acessibilidade desse grupo. Para compreender a dimensão da relevância que a revogação teve, é preciso conhecer não só a gama de benefícios que isso proporciona, como também o que a criação do decreto em si representou para a sociedade. Ressalta-se, primeiramente, que o aspecto educacional é apenas um dos pilares em que se pode debater a inclusão, mas, por ser a base de formação, não é à toa que ganhe centralidade quando o tema é abordado. A inclusão na sala de aula com recursos e profissionais capacitados é crucial para o desenvolvimento e formação de crianças com deficiência. Além de garantir o acesso à educação, a inclusão promove a interação social, o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, e a formação de valores como tolerância, respeito e compreensão da diversidade. Não obstante, o desempenho das crianças com deficiência também é aumentado quando elas estão em um ambiente escolar inclusivo. Pensando nisso, o Instituto Alana, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos, reuniu em um e-book gratuito diversas pesquisas nacionais e internacionais que comprovam como esse sistema de ensino beneficia os estudantes com deficiência, assim como os alunos sem deficiência. Ele pode ser acessado no seguinte endereço: https://bit.ly/ebook_instituto_alana. No quesito legislativo, a inclusão de pessoas com deficiência na rede de ensino brasileira é regulamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que estabelece que todas as escolas devem ser acessíveis e garantir a inclusão dessas pessoas. Além disso, a meta 4 do Plano Nacional de Educação determina que o estado deve garantir que a população entre 4 e 17 anos com necessidades especiais, incluindo deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e superdotação, tenham acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, priorizando a rede regular de ensino e garantindo uma educação inclusiva com salas de recursos multifuncionais, classes especializadas, escolas ou serviços especializados, sejam públicos ou conveniados. Vê-se, então, que a inclusão não é meramente uma opção a ser oferecida, mas sim um dever que o Estado e as instituições têm que cumprir. Graças às atualizações na legislação, observou-se um aumento significativo na adesão de crianças e jovens com deficiência nas escolas regulares. Segundo o portal do Ministério da Educação e pesquisas do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), em 1998, aproximadamente 200.000 crianças que necessitavam de educação especial estavam matriculadas em classes regulares de ensino básico. Já em 2014, esse número subiu para quase 700.000 crianças, distribuídas em 80% das 145.000 escolas brasileiras. Em 2017, o número de alunos na educação especial foi mais de um milhão e, no ano seguinte, alcançou 1,18 milhões, um crescimento de quase 11% em apenas 12 meses. Mais de 992.000 desses alunos estudam em escolas públicas regulares. “A inclusão não é um ato que se limita às diretrizes de uma escola, mas sim que irradia por todas as ramificações sociais, pois é no ambiente de aprendizagem que se consolidam valores humanos essenciais para a vida em comunidade.“ É evidente, por conseguinte, o quanto o decreto retratou um enorme retrocesso nos direitos já conquistados, o que, por sua vez, justifica a boa notícia que foi a sua revogação. A inclusão não é um ato que se limita às diretrizes de uma escola, mas sim que irradia por todas as ramificações sociais, pois é no ambiente de aprendizagem que se consolidam valores humanos essenciais para a vida em comunidade. A exclusão não é a solução para garantir um ambiente adequado ao desenvolvimento da criança com deficiência, mas sim apenas uma forma de mascarar e ocultar as deficiências como se estas pudessem gerar um potencial atraso nos demais colegas em sala de aula – a justificativa mais utilizada para o isolamento. É, em poucas palavras, uma atitude que simplesmente reflete o preconceito de quem não quer enxergar no outro os mesmos direitos e qualidades de si mesmo. Referências bibliográficas: https://novaescola.org.br/conteudo/3000/pne-meta-4 https://lizeseusamigos.org.br/noticias/detalhe/5/pessoas-com-deficiencia-no-brasil-o-que-os-dados-oficiais-nos-dizem#:~:text=Em%202020%2C%20segundo%20o%20Censo,mesmas%20turmas%20dos%20demais%20alunos http://portal.mec.gov.br/ultimas-noticias/222-537011943/74371-cresce-a-cada-ano-o-numero-de-criancas-atendidas-pela-educacao-especial-no-brasil https://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/cresce-20-o-numero-de-alunos-com-deficiencia-matriculados-na-educacao-basica/ https://alana.org.br/wp-content/uploads/2016/11/Os_Beneficios_da_Ed_Inclusiva_final.pdf https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/01/02/suspenso-pelo-stf-decreto-de-bolsonaro-que-instituiu-politica-de-educacao-especial-e-revogado-por-lula.ghtml