Janela da Patty: uma reflexão sobre o empoderamento da pessoa com deficiência

Por Yasmim Verdadeiro Augusto Com mais de 10 mil seguidores, a Janela da Patty é uma página no Instagram que busca contribuir com o empoderamento da pessoa com deficiência. Por trás dessa iniciativa está uma mulher inspiradora: Patrícia Lorete, niteroiense de 40 anos que aprendeu a conviver com o AME (Atrofia Muscular Espinhal) tipo 2 – patologia rara degenerativa – desde que nasceu.  Patty aprendeu a lidar com a dificuldade de aceitação, acesso e inclusão logo quando adentrou o universo educacional. “Foi muito difícil minha entrada na escola. A diretora falou na minha frente que não poderia me aceitar, porque eu não tinha condições de aprender”. E, desde então, isso se tornou uma inspiração para Patrícia, que percorreu cada degrau de formação até se graduar em Recursos Humanos e se pós-graduar em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, uma de suas maiores conquistas.  Apesar de investir nos estudos, Patty teve uma adolescência solitária. “Me faltou representatividade, eu não conhecia ninguém com deficiência que fosse bem-sucedida, que namorasse, que casasse, que trabalhasse. Não conhecia ninguém. Então, minhas dores foram vividas sozinhas, minhas neuras.” Até que sua vida mudou aos 28 anos, quando teve acesso à internet e conheceu mulheres com deficiência que a empoderaram. E foi justamente com essa motivação que a Janela da Patty foi idealizada e criada. Através de seus 3 pilares – autoconhecimento, autoaceitação e informação – a página busca falar sobre representatividade e acessibilidade, conscientizando as pessoas sobre a importância da inclusão e inspirando o empoderamento da pessoa com deficiência.  Patrícia também tem como objetivo conscientizar as pessoas que a acessibilidade é um direito delas, crucial para que a inclusão social aconteça. “E uma pessoa que entende bem de acessibilidade, uma pessoa com deficiência, ela tem muito mais chances de se empoderar socialmente, porque ela vai conseguir se posicionar, o que pessoas sem conhecimento sobre seus direitos não conseguem muito bem”. E Patty transmite essa conscientização em todos os seus trabalhos, colocando legenda em seus stories e #Pra CegoVer em suas postagens.  Atualmente, Patrícia trabalha integralmente em prol da Janela da Patty, por onde obtém renda com divulgação e venda de e-books – dos quais participou da criação – e de espaço na página. Mesmo obtendo apoio de seus familiares para desenvolver seu trabalho no Instagram, Patty tentou conciliar essas ações com o trabalho em empresas, em áreas do RH, mas foi dispensada algumas vezes por ter uma formação superior ao que as vagas PcD exigiam e por não conseguir atender telefones. Afirma: “com a patologia degenerativa e com essa gravidade e, hoje, com menos movimentos ainda, sempre existe uma desculpa […] o que só me confirmou que as empresas procuram pessoas com deficiências mais leves”. Mas Patty não deixa que esses fatos a impeçam de sonhar! Seu maior desejo atualmente é ter dinheiro para pagar uma cuidadora, devido a idade avançada da mãe – com quem mora. “Eu conseguiria ampliar o meu trabalho com a Janela, sair mais, conhecer mais pessoas”.  Mesmo assim, Patty é feliz com a diferença que promove na vida das pessoas. “Muitas mulheres falam que o meu trabalho impacta na autoestima delas e, pra mim, isso não tem preço, porque eu queria muito ter tido alguém na minha juventude e adolescência que me propusesse um novo caminho de autoestima, de autoaceitação, mas, infelizmente, não aconteceu comigo”.  Então, não perca a oportunidade de se envolver na causa, lutar contra o capacitismo e ajudar Patrícia em seus trabalhos! Siga a Janela da Patty e seja empoderado pela autoestima, autoaceitação e informações de acessibilidade que a página promove. Afinal de contas, como disse Patrícia, “é preciso continuar e é possível continuar. A vida é linda e nunca podemos perder a esperança de dias melhores”. Confira a entrevista na íntegra no link.

Histórias de Cego: a trajetória de Marcos Lima no ambiente digital e um debate sobre acessibilidade

Por Dimitrius Voliotis Na última década, houve um crescimento significativo no número de pessoas trabalhando com a criação de conteúdo para mídias online. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Internet (Abranet) realizada em 2016, pelo menos 326 mil pessoas trabalhavam em sites ou áreas correlatas na web até aquele ano, representando um salto de 217% em relação ao início dos anos 2000.  As atividades variam, passando por blogs, criação de vídeos para o YouTube e, mais recentemente, conteúdo para redes sociais como o Instagram e o TikTok, além das pessoas responsáveis pela parte técnica que move o sistema. Dentre os conteúdos explorados, a maioria parte das vivências pessoais, como ocorre com Marcos Lima, idealizador do canal Histórias de Cego. Através de vídeos descontraídos, palestras e até um livro de crônicas, o youtuber e palestrante retrata a jornada cotidiana de uma pessoa com deficiência visual, rompendo estigmas e trazendo o debate sobre acessibilidade e outros temas de forma bem-humorada.  Apesar do crescimento no número de oportunidades na área de conteúdo digital, o caminho teve complicações para Marcos, que é cego. Segundo ele, a “falta de acessibilidade é um obstáculo o tempo todo. Os aplicativos têm em geral uma boa acessibilidade, mas para alguns detalhes é bem complicado”. Acrescentou ainda uma crítica específica ao Youtube, dizendo que “atualmente, programar um vídeo é tarefa quase impossível”.  De acordo com a Abranet, há acessibilidade em apenas 1% dos sites existentes no Brasil, conforme pesquisa realizada em 2020. A associação informou que “foram verificados recursos importantes para garantir a acessibilidade, como a descrição de imagens, identificação para leitores de tela, apontando quando há formulários e formas de preencher os campos destes”.  Os problemas, no entanto, não são a única face da internet para pessoas com deficiência. O espaço pode ser ocupado, trazendo maior representatividade e conscientização, além de, como Marcos ressalta, “dar voz às pessoas”, para falarem não só sobre suas deficiências, mas sobre qualquer assunto que as interessa. O jornalista optou pela carreira justamente para atingir um público maior, amplificando sua mensagem. “Falar para mais gente é parte fundamental da minha missão de usar a comunicação para quebrar barreiras e destruir os PreconCegos”. O reconhecimento pelo trabalho veio e o canal de Marcos possui cerca de 275 mil inscritos, que o acompanham em seus vídeos semanais. Ele relata um pouco da dificuldade de atingir esse patamar, o que o levou, inclusive, a reconsiderar seguir com o projeto. “Encerrei o meu primeiro ano de youtube com menos de 100 inscritos. Você pensa em um vídeo, elabora o melhor possível e quando vê, tem 15 visualizações. Isso é muito frustrante. Cheguei a desistir do canal, fiquei uns seis meses sem postar vídeo nenhum”. Segundo ele, o ideal perseguido e a crença na importância do material produzido foram os motivos para continuar gravando. Com relação aos preconceitos enfrentados, ainda que a sociedade sofra com o capacitismo explícito ou velado, o respaldo do jornalista pende mais para o lado positivo, afirmando que “o público recebeu e recebe muito bem”, além de que “há um ou outro comentário preconceituoso, principalmente em vídeos mais polêmicos, mas são de longe a minoria”. Quando perguntado sobre a representatividade de pessoas com deficiência no meio digital, Marcos lembrou mais uma vez de como a internet pode dar voz a quem queira falar, o que pode ajudar a tornar o ambiente mais plural. Há um novo cenário disposto na internet, com novos postos a serem ocupados, maior diversidade, inclusão e debate, o que não significa que haja uma igualdade de oportunidades, considerando que ainda há processos de evolução por vir. Marcos é uma das exceções, conseguiu remar contra a maré e estabelecer sua voz nesse cenário, evidenciando o quão importante é fazer esforços para tornar esses espaços acessíveis a todos. Pensando nisso, o jornalista aconselhou a qualquer um que esteja interessado em seguir com projetos no ambiente digital, especialmente pessoas com deficiência, “para fazer por amor, para esquecer audiência ou monetização, porque esses são dois elementos muito frustrantes. Fazer porque gosta, porque acredita e deixar que o resto seja consequência”.

Click Inclusão: acessibilidade e inclusão através de palavras

Por Yasmim Augusto O Click Inclusão foi desenvolvido com o objetivo de disponibilizar informações de qualidade e trazer conhecimento sobre a importância da inclusão na sociedade. Com mais de mil seguidores no Instagram e cerca de 30 publicações no blog, há pouco mais de 2 anos o Click Inclusão vem trazendo notícias de acessibilidade para o grande público. Natália Marques, 23 anos, idealizadora do blog, afirma que tudo surgiu quando ela era colaboradora em uma empresa de acessibilidade e viu uma oportunidade de exploração desse eixo temático no ambiente digital. “Eu estava fazendo algumas pesquisas sobre acessibilidade, e encontrava poucos sites que tinham informações de qualidade. Sempre caía nos mesmos 5 ou 6 sites, então vi que tinha um espaço ali pra ser explorado, e era um espaço bem necessário”.  A iniciativa foi dada, e os primeiros passos foram relacionados à escolha do nome. Vencedor de uma votação – com mais de 30 participantes e 3 opções de nomes -, Click Inclusão batizou o blog e a página do Instagram.  E o projeto foi ganhando forma através da integração de 3 áreas da empresa na qual Natália trabalhava. A Equipe de Marketing ajudou com a identidade visual do blog e até mesmo com a sugestão da criação de um Instagram para a divulgação dos textos. O TI, por sua vez, ajudou na criação do domínio (o clickinclusao.com). E, por fim, a Natália Marques – na época, no cargo de Analista A1 – era responsável pelos conteúdos publicados no blog e Instagram do Click Inclusão.  Por ser um assunto pouco veiculado, a acessibilidade é o grande foco do blog. “O Click nasceu com o objetivo de trazer a acessibilidade, a inclusão como um assunto que todo mundo pode falar, e como um assunto que todo mundo pode entender, e que todo mundo pode discutir e pode levar para as outras pessoas”, afirma Natália. Essa democratização do acesso ao conhecimento relacionado à inclusão busca ser alcançada através do emprego de uma linguagem com uma pegada informal, mas que nem por isso deixa de trazer informações de qualidade. Isso faz com que todos possam ler e compartilhar os conteúdos transmitidos pelo Click Inclusão.  Agora, que o blog trata de acessibilidade e inclusão todos já sabem. Mas, qual é o teor das informações do Click Inclusão? Por aqui, é possível encontrar notícias e informações pontuais de uma ação que está sendo realizada agora, assim como diversos conteúdos evergreen, aqueles que tratam de temas atemporais. Mas esse foco na inclusão não se limita às palavras dos textos. Desde 2019, recursos de acessibilidade são usados no Instagram e no blog juntamente com as informações veiculadas. Conforme discorre Natália: “A gente sempre usou todos os meios de acessibilidade no Instagram. Então, o #PraCegoVer. Se tinha… acho que a gente não chegou a postar nenhum vídeo, mas, se tivesse, com certeza a gente ia pôr o Closed Caption, a Audiodescrição”. Características construídas ao longo de 2 anos, o Click Inclusão ainda cultiva esse teor. E é dessa mesma forma que voltamos a publicar e inspirar acessibilidade! Com o objetivo de trazer informações acessíveis para todos sobre assuntos de inclusão, o Click agora conta com 5 redatores que semanalmente irão trazer conteúdos de qualidade para a mídia.  E para começar essa caminhada, esse mês vamos explorar o eixo temático de Digital Influencers com deficiência que usam das redes sociais para compartilhar suas dificuldades diárias e empoderar pessoas com deficiência.  Então, não deixe de fazer parte dessa história e de compartilhar conhecimentos sobre inclusão. Fique de olho em nossas publicações, aprenda sobre acessibilidade e ajude na construção de uma sociedade mais inclusiva!  Entrevistada: Natália Maria Marques Pizzinatto é escritora e roteirista. Formada em Comunicação Social com Especialização em Cinema.

Acessibilidade em tempos de pandemia: o injusto mundo limitado das pessoas com deficiência

Por Yasmim Augusto Todas as imagens desse artigo possuem texto alternativo com a audiodescrição resumida (#pracegover). Com aproximadamente 15 milhões de infectados e mais de 620 mil mortes, o coronavírus é um inimigo invisível que estamos enfrentando há meses. Com uma rotina repleta de mudanças, “adaptação” está sendo a chave para encarar e superar todo esse cenário mundial: em questão de dias, passamos a adotar a jornada em home office; a higienização se tornou um hábito muito presente; ir ao mercado deixou de ser uma tarefa costumeira e simples; EaD se tornou uma realidade muito disseminada; e um simples abraço se tornou uma ameaça. No geral, fomos afetados no nível econômico, social, educacional, de infraestrutura e de saúde pública. Sem critérios de seletividade, o vírus atinge e preocupa a todos, independente de classe e condição socioeconômica e não é novidade que o período de quarentena está sendo um desafio. Mas como será que as pessoas com deficiência (que representam 24% dos brasileiros) – já há muito excluídas socialmente – estão enfrentando esse período de maiores restrições ainda? As consequências de todas as mudanças que vivenciamos são mais acentuadas nas pessoas com deficiência, pois, na maioria das vezes, elas são marginalizadas, tendo dificuldades no acesso a direitos básicos (como locomoção e saúde) e precisam de ajuda de terceiros na realização de tarefas rotineiras, o que também dificulta o isolamento social. Até mesmo as atividades que se tornaram hábitos no tempo em que vivemos, como higienizar as mãos, tirar os sapatos e trocar de roupa ao chegarmos em casa, a necessidade de isolamento social e o próprio uso de máscara têm se mostrado como desafios para as pessoas com deficiência. Essas dificuldades se encontram nos vários níveis de deficiências: algumas pessoas desenvolvem comportamentos mais agressivos e ansiosos devido ao fato do isolamento, outros, ainda, têm a sua comunicação afetada e encaram diversos obstáculos para se adaptar à nova realidade e fugir das consequências negativas das desigualdades, que também podem se refletir no nível econômico. A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que “a pandemia de coronavírus está aprofundando as desigualdades para mais de um bilhão de pessoas [uma a cada sete pessoas no mundo] que têm alguma deficiência”, já que pobreza e deficiência estão relacionadas, de modo que 20% das pessoas que estão abaixo da linha da pobreza no mundo têm algum tipo de deficiência.  Dessa forma, todas as pessoas com deficiência estão enfrentando diferentes dificuldades de acordo com sua realidade. Por exemplo, um cadeirante já enfrenta constantemente em sua vida as dificuldades da falta de acessibilidade nas ruas. Mas em tempos nos quais podemos carregar o vírus para casa devido ao contato com o solo, como realizar a constante higienização da cadeira ou deixá-la na porta de casa para evitar a contaminação? Ou, ainda, como evitar o contato com as rodas, já que muitos cadeirantes utilizam-se das mãos como forma de auxílio na movimentação da cadeira? E o que fazer quando um objeto de proteção coletiva se configura como um limitador de comunicação? As pessoas com deficiências ou limitações auditivas geralmente fazem leitura labial (principalmente aqueles que não dominam totalmente o uso de Libras – Língua Brasileira de Sinais) para entender o que as pessoas falam, mas atualmente a máscara está se tornando um obstáculo nesse aspecto. Devido a isso, essas pessoas vivem em um dilema: proteger quem está ao redor, ou proporcionar a comunicação? João Pedro, de 20 anos, graduando de Direito da UFJF-GV, com perda auditiva de 75% e sem domínio de Libras, explica a sensação em entrevista concedida a UFJF: “Imagine estar em um comércio russo. Você escuta vozes, mas não entende nada”. Outra dificuldade para as pessoas que realizam leitura labial também ocorre com as vídeo conferências e aulas online. Muitas pessoas optam por não aparecer em vídeo e isso impossibilita a leitura labial. Outras, ainda, esquecem o microfone aberto, o que provoca uma série de ruídos e interferências para aqueles com perda auditiva, dificultando o entendimento da fala. Além disso, também há um atraso entre a articulação da boca e o som da fala (delay), o que provoca falhas na conexão, levando a dessincronia entre as transmissões de áudio e vídeo, o que gera efeitos negativos para quem precisa fazer essa leitura visando entender as informações passadas. A comunicação também tem se mostrado como um risco para aqueles que dependem de Libras para transmitir as informações. Para Rafael Silva Guilherme, professor da UFJF-GV, tradutor e intérprete de Libras, em entrevista concedida a UFJF, “como [Libras] é uma língua gestual, ela é sinalizada com o corpo e as mãos. E a mesma mão com que eu falo é a mão que eu toco os objetos e que, em alguns momentos, preciso tocar o meu rosto. Alguns sinais são feitos com a aproximação da mão no rosto, próximo à boca, aos olhos. Isso poderia causar uma contaminação”. Rafael também afirma que o nível de emprego oferecido a população com deficiência, conforme regulamenta a Lei nº 8.213/93 (que obriga a contratação de um determinado percentual de pessoas com deficiência para cada número de funcionários) irá diminuir, porque “se as empresas estão demitindo as pessoas hoje por uma questão de crise, significa que o percentual obrigatório para cumprirem por causa da cota também vai diminuir”. E quanto às pessoas cegas ou com perda visual, que utilizam do sentido do tato como seus olhos? Como tocar os objetos sem provocar ou ser vítima de uma possível contaminação? E quanto as aulas realizadas no Ensino à Distância (EaD), que nem sempre estão prontas para atender a um público específico, sem ferramentas de acessibilidade, como Libras, Closed Caption e/ou Audiodescrição? Esses são alguns dos aspectos que têm permeado e dificultado ainda mais a realidade das pessoas com deficiência no momento atual. O isolamento social está sendo uma realidade difícil para toda a população mundial, mas as pessoas com deficiência estão encarando esse novo normal com maiores obstáculos, o que revela, portanto, a urgência de concretização de ações de inclusão social, pautadas