A história que deu origem ao Setembro Amarelo abre espaço para refletir sobre os desafios de saúde mental enfrentados por pessoas com deficiência.
Por: Manuela Mineiro
Em 1994, nos Estados Unidos, o jovem Mike Emme, de apenas 17 anos, cometeu suicídio. Mike era apaixonado por carros. Seu último projeto havia sido restaurar um Mustang 68, pintando-o de amarelo. Após a sua morte, muitas pessoas deixaram cartões decorados com fitas na cor amarela em seu velório, para fazer alusão ao carro que virou sua marca registrada. O gesto deu origem a uma campanha que, anos mais tarde, ganharia alcance internacional. E foi em 2003, nove anos após a morte do estudante, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) instituiu o dia 10 de setembro como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A conscientização sobre a saúde mental no mês de setembro tem outras camadas ao pensarmos em pessoas com deficiência. Um estudo realizado na Inglaterra indica que há um risco quatro vezes maior de atentado contra a própria vida em pessoas com deficiência do que em pessoas sem deficiência, como indicado pela matéria do portal “Viva Bem”, do “UOL”.
O médico psiquiatra, César Augusto Trinta Weber, também em entrevista ao portal, explica que a relação entre deficiência e saúde mental não pode ser analisada de maneira isolada. Segundo ele, “pessoas com deficiência frequentemente enfrentam dificuldades na interação social e no acesso a recursos, levando ao isolamento. Além disso, a dor crônica e as comorbidades associadas a essas condições também aumentam os riscos de depressão, agravados pela exclusão social e pela dependência de cuidadores.”
Silvia Nóbrega, jovem de 23 anos que possui deficiência auditiva, explica como a exclusão a afetou em sua infância. “No passado, sentia uma profunda solidão, porque minha família não sabe Libras, o que tornava a comunicação muito difícil. Muitas vezes, eu precisava de atenção, apoio ou apenas alguém para me ouvir, mas acabava sendo ignorada ou não compreendida. Isso me fazia sentir isolada, como se eu estivesse vivendo em um mundo diferente do deles. A falta de esforço para aprender minha língua e tentar me entender plenamente aumentou ainda mais a sensação de solidão e desconexão.”
O relato de Silvia deixa clara a importância de uma rede de apoio que transponha as barreiras das deficiências. Jamerson Francisco, redator do “UOL”, que ficou tretraplegico em 2017, conta como a ajuda de amigos e familiares contribuiu para a sua confiança e autoestima.“Ter uma rede de apoio é outra camada essencial que complementa uma caminhada de muitas conquistas e superações. A compreensão por parte de minha família, amigos e amigas forma uma base de confiança e uma rede de segurança que traz a certeza de que não estou sozinho. O que estou querendo dizer é que essa experiência me expandiu, trouxe mais qualidade para eu observar como as relações humanas se dão.”
Ao pensarmos sobre o Setembro Amarelo, é importante que levemos essas reflexões para o nosso dia a dia, para que possamos construir um ambiente cada vez mais inclusivo e respeitoso. Pois, quando o ambiente ao redor acolhe, os desafios sociais e as barreiras físicas são superados de forma coletiva.


