Campanha amplia a conscientização e fortalece a criação de espaços de arte, cultura e protagonismo para a comunidade surda.
Por: Henrique Regado & Douglas Ferreira.
No mês de setembro, celebra-se um marco especial e importante para pessoas surdas ou com algum grau de deficiência auditiva, o Setembro Azul. Também conhecido como Setembro Surdo, a campanha representa um momento de conscientização e valorização da comunidade surda, enaltecendo suas lutas, conquistas, a importância da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a Cultura Surda.
A cor azul serve como homenagem às pessoas surdas que foram perseguidas pelo regime nazista. Em 1939, entrou em vigor a chamada Ação T4 (Aktion T4, em alemão), programa de eutanásia do governo nazista que tinha como alvo pessoas com deficiência física ou mental, consideradas “vidas que não mereciam viver”. Para identificá-las, os nazistas amarravam fitas azuis em seus braços. Como homenagem à resistência, a comunidade surda ressignificou o azul e o escolheu como representação da luta e do legado das vítimas.
A escolha do mês de setembro se deve a vários fatos de grande relevância para a comunidade: em 26 de setembro de 1857, a convite de D. Pedro II, o francês Eduard Huet fundou, no Rio de Janeiro, a primeira escola de surdos no Brasil, o Imperial Instituto de Surdos-Mudos — atualmente o Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O dia foi batizado como o Dia Nacional do Surdo. Mais recentemente, em 2024, o sancionamento da Lei nº 7.392/2024 no Distrito Federal, que estabeleceu a data de 5 de setembro como o Dia da Cultura Surda.
A comunidade surda engloba todas as pessoas surdas e com algum tipo de deficiência auditiva, mas não só isso; também fazem parte tradutores e intérpretes de Libras, parentes de pessoas surdas e quaisquer outros que estejam engajados com a causa de alguma forma. A Cultura Surda diz respeito ao modo de vida característico desse grupo de pessoas, cuja visão é o principal sentido de interpretação do mundo.
Karin Strobel, pesquisadora surda, em seu livro “As imagens do outro sobre a cultura surda“, explica com mais detalhes: “Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das ‘almas’ das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo.”
Abrangem a Cultura Surda as línguas de sinais, vibrações, expressões faciais e até artes características da comunidade, como o Slam do Corpo, batalha de poesia entre duplas formadas por uma pessoa surda e uma ouvinte, que traduzem e apresentam textos em língua de sinais e língua portuguesa simultaneamente.

Com o objetivo de promover a Cultura Surda e combater a exclusão histórica da comunidade surda em espaços artísticos e culturais, surgiu a Euforie-se, uma plataforma cultural brasileira com atividades e acessibilidade voltadas às pessoas surdas. Em entrevista ao Portal Incluir, Gabriel Isaac, criador de conteúdo surdo e fundador do evento, destacou a falta de inclusão em festas populares como fator determinante para a concepção do projeto:
“Durante muito tempo, a participação de pessoas surdas foi limitada no Carnaval, micareta… como se nós, surdos, nunca pudéssemos aproveitar essas festas. Eu sou brasileiro, tenho CPF, e mesmo assim não consigo participar plenamente dessa cultura”, afirmou.
O 1º Encontro Cultural da Euforie-se, realizado em 2025, contou com apresentações e performances de artistas surdos, exibições audiovisuais acessíveis, saraus, atividades interativas e espaços dedicados ao público infantil.

Por meio dessa programação, além de tornar ações culturais mais acessíveis ao povo surdo, Isaac busca colocá-lo como protagonista da experiência: “Precisamos pensar a comunicação de forma eficaz, trazendo pessoas surdas para o centro da construção, e não apenas intérpretes. É daí que vem a urgência e o significado por trás dessas experiências.”

