Por Yamim Augusto

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As síndromes, geralmente, são associadas a deficiências graves que ocasionam limitações sociais, físicas e intelectuais nas pessoas. Entretanto, existe uma síndrome rara que compensa essa limitação com habilidades intelectuais fora do comum: a Síndrome de Savant.

A Síndrome de Savant é um distúrbio psíquico em que há compensações nas habilidades de intelecto devido a um déficit de inteligência, consequente de danos no hemisfério esquerdo do cérebro que são compensados por um maior desenvolvimento no hemisfério direito. Existem alguns fatos sobre a síndrome que ainda não são conclusivos e, apesar de rara, essa condição é descrita na literatura médica desde o século XVIII. Em 1789, a síndrome foi registrada pela primeira vez pelo psiquiatra americano Benjamin Rush, que descreveu a habilidade fora do comum de Thomas Fuller de fazer cálculos, já que ele não tinha sequer muito conhecimento de matemática. 

Após esse registro, a síndrome passou a ser denominada de diversas maneiras. John Langdon Down, médico inglês, foi o primeiro a usar o termo idiot savant (idiota prodígio) para denominar o distúrbio. Na época, o termo idiota se referia a pessoas com baixo QI, mas devido ao tom pejorativo que a expressão foi ganhando ao longo da história, em 1980, o transtorno foi rebatizado de Síndrome de Savant, já que savant, em francês, significa sábio.

#PraCegoVer Audiodescrição resumida: Imagem com fundo azul. Ao centro, há uma silhueta em branco do perfil de um rosto humano. No lugar do cérebro, há engrenagens marrons, verdes, vermelhas, amarelas, cinzas e rosas.

Esta síndrome normalmente é visível desde o nascimento e aparece frequentemente em crianças com autismo. Contudo, esse transtorno também pode se desenvolver na idade adulta quando ocorre um traumatismo cerebral ou virose com encefalite que levam a quadros de lesões cerebrais, as quais são compensadas pela potencialização de outras habilidades associadas às regiões não afetadas do cérebro. 

Pesquisas da Universidade do Wisconsin (Madison, EUA) revelam que os homens são mais suscetíveis a terem essa síndrome, que sempre está associada a outro transtorno. Além disso, estudos demonstram que existem menos de 100 indivíduos savants no mundo atualmente, de modo que 50% dos casos desse distúrbio são associados ao Transtorno de Espectro Autista (TEA) e os demais 50% são associados a outros transtornos. Logo, estatísticas comprovam que 1 em cada 10 indivíduos autistas – e 1 em cada 2 mil pessoas que sofreram algum dano cerebral ou são portadores de outros transtornos fora o TEA – são também associadas à Síndrome de Savant.

Segundo Mirian Revers, o aparecimento das habilidades extraordinárias do savantismo é resultado de uma disfunção em determinadas regiões cerebrais, que provoca uma resposta paradoxal com a ativação e potencialização de outras áreas do cérebro, processo descrito por Kapur, em 1996, denominado de “facilitação funcional paradoxal”. Esse processo explica que, após haver um dano cerebral em determinada região, geralmente no hemisfério esquerdo, há a ativação de outra região cerebral, com reconfiguração da circuitaria neural e o aparecimento de capacidades até então adormecidas, havendo, portanto, uma desinibição de certas habilidades.

Dentre as habilidades potencializadas, as mais comuns são:

  • Memorização: capacidade mais comum nos pacientes diagnosticados com a síndrome que têm facilidade de memorizar horários, listas telefônicas, dicionários completos, livros e citações, entre outros;
  • Cálculo: são capazes de fazer cálculos matemáticos complexos em poucos segundos, sem utilizar papel ou qualquer aparelho eletrônico;
  • Habilidade musical: são capazes de reproduzir uma peça musical inteira após a ouvirem apenas uma vez; 
  • Habilidade artística: apresentam excelente capacidade para desenhar, pintar ou fazer esculturas complexas;
  • Linguagem: conseguem compreender e falar mais do que uma língua, existindo casos em que desenvolvem até 15 línguas diferentes.

A pessoa diagnosticada com savantismo pode desenvolver apenas uma dessas habilidades ou várias, entretanto, as mais comuns são as relacionadas à memorização e à música. 

Ademais, por mais que essas aptidões também estejam associadas àquelas que pessoas sem transtornos possuem, a forma como elas se desenvolvem em um savant é diferente. Por exemplo, a memória que o savantismo proporciona envolve pouco pensamento consciente e, muitas vezes, nem exige compreensão do que está sendo decorado.

É justamente por ter habilidades altamente potencializadas que, muitas vezes, a Síndrome de Savant é confundida com o TEA. A memorização altamente desenvolvida dos savants assemelha-se ao interesse restrito do autista, mas a diferença é que, para desenvolver determinada habilidade e dominar um assunto, o autista requer foco intenso, enquanto que a memória do savant se revela como um dom inato, que não requer estudo. Por exemplo, ao autista ouvir uma sinfonia, através do foco intenso e estudo, pode reproduzi-la, enquanto o savant consegue reproduzir toda a música após ouvi-la apenas uma vez. 

No entanto, mesmo com todas essas habilidades, a Síndrome de Savant também provoca efeitos negativos nos indivíduos. Os pacientes com esse transtorno apresentam limitações na comunicação, o que implica em dificuldades em se comunicar, compreender o que lhe é transmitido e estabelecer relações interpessoais, um tanto quanto paradoxal, já que algumas pessoas com a síndrome desenvolvem grande habilidade para idiomas. 

Além disso, o paciente com a condição pode ficar muito focado em suas habilidades específicas e diminuir o interesse em atividades básicas e essenciais da vida, como por exemplo ir de um lugar para o outro, fazer e manter amizades, organizar a vida doméstica, entre outros. E, justamente por terem uma habilidade específica focada em apenas uma atividade, pesquisas revelam que, no geral, os savants são pessoas com baixo QI (40 a 70) em comparação com o QI médio de pessoas típicas (90 a 109). Entretanto, isso não é uma regra, já que é possível encontrar pacientes com QI de até 114.

Infelizmente, na literatura médica não existe nenhum indício de cura para a síndrome. Contudo, existe tratamento fornecido por profissional especialista, que estabelece as intervenções mais adequadas de acordo com o quadro específico de cada paciente, visando o controle dos sintomas, melhoria da qualidade de vida e na ocupação do tempo livre. Toda essa terapia ocupacional também auxilia os portadores da síndrome a desenvolverem e melhorarem suas capacidades de comunicação e compreensão.

Para saber um pouco mais sobre essa síndrome e também visualizar melhor os seus efeitos na vida das pessoas, existem duas produções audiovisuais bem significativas: a série The Good Doctor e o filme Rain Man.

The Good Doctor é uma série com 3 temporadas criada por David Shore, em 2017, que conta a história de um residente de cirurgia, Shaum Murphy, que é autista e apresenta a Síndrome de Savant. Suas habilidades provenientes da síndrome o ajudam em diversos momentos de sua profissão. 

Já o filme Rain Man, dirigido por Barry Levinson em 1988, é inspirado na vida de Kim Peek (1951-2009), um autista savant americano. A produção cinematográfica demonstra as diversas limitações enfrentadas pelo paciente, como dificuldade no momento de se vestir, além de focar em suas habilidades de memorização que o fez decorar 6 mil livros e informações de rodovias, CEP, DDD e canais locais de TV de todas as cidades dos EUA. 

Dessa forma, a Síndrome de Savant é um distúrbio psíquico raro, conhecido há mais de 200 anos, mas que ainda requer muito estudo. Essa síndrome da genialidade faz com que seu portador não passe despercebido por suas habilidades únicas e extraordinárias.

Referências